segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Julgar o nosso próximo

Existem algumas coisas nas quais acreditamos simplesmente porque as ouvimos várias e repetidas vezes, sem nunca termos tido o devido cuidado de verificar se é mesmo assim, se isso correspondente rigorosamente à verdade. Vamos “na onda” do que parece ser o consenso comum, principalmente quando tais coisas parecem ser aprovadas por pessoas acima de qualquer suspeita.

Entre nós, podemos encontrar alguns exemplos com referência aos textos de Ellen White. Quantos já não ouviram serem-lhe atribuídas afirmações como por exemplo: “Cristo voltará à meia-noite“ou “igrejas inteiras se perderão“, frases que são habitualmente tidas como proferidas ou escritas pela irmã White, quando, na realidade isso nunca sucedeu?

E quanto à Bíblia, luz maior que suplanta em relevância todas as outras luzes menores juntas? Será que também estabelecemos conceitos ao longo do tempo que não estão fundamentados na Sagrada Escritura ou que por ela são mesmo contraditados?

Tenho-me apercebido que isso também sucede, não necessariamente apenas por uma única razão, mas sim por um conjunto de circunstâncias que o proporcionam. Vou abordar um exemplo.

Creio que todos já ouviram dizer “não podemos julgar ninguém. Deus é que julga as pessoas“. Esta frase não está completamente errada; mas também não está completamente certa.

Já alguma vez alguém cantou lindamente na igreja que frequenta? Alguém tocou magistralmente ao piano um hino do nosso hinário? Acredito que sim! E já se apercebeu como as respostas àquelas perguntas implicam um julgamento, uma avaliação, uma aferição de mérito e qualidade?

Em alguns desses casos, poderá até ter pensado: “que linda voz!” ou “esta pessoa canta (ou toca) muito bem!“. Não é este um juízo, uma avaliação? Sim, é uma avaliação do comportamento de quem executou aquela peça musical.

Pense neste exemplo, meramente académico: imagine que um amigo, vizinho ou irmão da igreja estava a conversar consigo e, de repente, com recurso a uma barra de ferro começava a espancar a sua família. O que faria? Ficaria impávido e sereno a olhar o desenrolar da situação? Seguramente que não! Será que imediatamente classificaria essa atitude como errada, e agiria para detê-lo? Eu acredito que sim! Pois bem, ao fazê-lo estaria – e bem! – a julgar o seu procedimento.

Seria capaz de inscrever o seu filho numa escola depois de verificar que as educadoras e as professoras lidam com as crianças fazendo recurso a maus tratos? Claro que não! Julgaria de imediato essas atitudes como erradas, impróprias.

E mesmo acontece se virmos um idoso a ser abusado, um condutor a desrespeitar perigosamente o código da estrada, um marido a trair a esposa, um jovem delinquente a assaltar uma casa, etc.; é absolutamente consensual o juízo que fazemos do comportamento das pessoas em causa.

Repare neste excerto do Salmo 26 (v. 9, 10): “não apanhes a minha alma com os pecadores, nem a minha vida com os homens sanguinolentos, em cujas mãos há malefício, e cuja mão direita está cheia de subornos“.

Como é que o salmista trata alguns entre os seus próximos como pecadores, sanguinolentos, maléficos e subornadores? Seguramente porque ao analisar o seu comportamento encontrou motivos de reprovação.

Quer fazer o mesmo raciocínio? Então, começo uma lista quase interminável para ver como é fácil e pacífico fazer este tipo de juízo:

- Caim fez bem ou mal ao assassinar o seu irmão?
- Noé fez bem o mal ao embriagar-se?
- Abraão fez bem o mal ao esconder a verdade sobre sua esposa?
- Os irmãos de José fizeram bem ou mal ao vendê-lo como escravo?
- Moisés fez bem ou mal ao bater na rocha?
- David fez bem ou mal ao deitar-se com Betseba?
- Etc., etc….

Salomão é conhecido como o homem mais sábio. Entre as manifestações dessa sabedoria, talvez a mais famosa evidência seja quando decidiu qual de duas mulheres deveria ficar com uma criança que ambas disputavam (I Reis 3).

Já refletiu no pedido que Salomão fez a Deus para que Ele lhe concedesse essa sabedoria?

“A teu servo, pois, dá um coração entendido para julgar a teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal; porque quem poderia julgar a este teu tão grande povo?” (I Reis 3:9). E o verso seguinte diz que “esta palavra pareceu boa aos olhos do Senhor“.

Faço outra questão para seu raciocínio: o Manual da nossa igreja tem 17 páginas dedicadas à disciplina eclesiástica. Ora, para exercê-la conforme previsto, há que fazer uma avaliação e um julgamento do procedimento e comportamento do(s) membro(s), correto? E é isso para isso que essas normas foram estabelecidas.

Isto para dizer que passamos o dia inteiro a avaliar e fazer juízos de valor sobre as mais diversas situações e pessoas no que diz respeito ao seu comportamento.

Aliás, certa ocasião Paulo repreendeu os crentes de Corinto por não conseguiram ajuizar entre eles algum conflito que existia: “não há pois entre vós sábios, nem mesmo um, que possa julgar entre seus irmãos?” (veja I Coríntios 6).

Contudo, não defendo que nos tornemos supremos executores de justiça para com o nosso próximo em tudo quanto é âmbito exclusivo do nosso proceder, seja certo ou errado. Repare:

”Tão fraca, ignorante e sujeita ao erro é a natureza humana que todos devemos ser cautelosos na maneira de julgar o próximo. Pouco sabemos da influência de nossos atos sobre a experiência dos outros. O que fazemos ou dizemos pode parecer-nos de pouca importância, quando, se nossos olhos se abrissem, veríamos que daí resultam as mais importantes conseqüências para o bem ou para o mal” (Ellen White, Ciência do Bom Viver, p. 483).

Muito menos devemos levar este ímpeto longe demais. Eis um exemplo:

“A obra de muitas pessoas que têm responsabilidades não é compreendida, não são apreciados seus trabalhos, enquanto a morte não os abate. Quando outros retomam as funções que eles exerciam, e enfrentam as dificuldades que eles encontraram, compreendem quanto a sua fé e coragem foram provadas. Muitas vezes perdem de vista, então, os erros que estavam tão prontos a censurar. A experiência ensina-lhes a simpatia. É Deus quem permite que os homens sejam colocados em posições de responsabilidade. Quando erram, tem poder para corrigi-los, ou para retirá-los do cargo que exercem. Devemos acautelar-nos de não tomar em nossas mãos o direito de julgar, que pertence a Deus” (idem, p. 484).

Contudo, não nos podemos demitir de examinar criteriosamente a diferença entre a verdade e o erro:

“Aquilo que, nos conselhos celestes, o Pai e o Filho julgaram essencial à salvação do homem acha-se claramente apresentado nas Escrituras Sagradas. As infinitas verdades da salvação são tão claramente expressas, que os seres finitos que desejam conhecer a verdade não podem deixar de compreender. Têm sido feitas revelações divinas para sua instrução na justiça, a fim de que glorifiquem a Deus e ajudem a seus semelhantes. Essas verdades encontram-se na Palavra de Deus – a norma pela qual nos cumpre julgar entre o certo e o erro” (idem, Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 438).

“… O necessário conhecimento será facultado a todos que se achegam a Cristo, recebendo e praticando-Lhe os ensinos, tornando Sua Palavra parte da própria vida. O Espírito Santo ensina ao estudante das Escrituras a julgar todas as coisas pela norma da retidão, da verdade e da justiça” (idem, p. 484).

Quero reforçar que estamos a falar de julgar ações, procedimentos e comportamentos! Isto porque nenhum homem consegue julgar o coração do seu próximo (muitas vezes, nem o nosso próprio conseguimos entender…).

Numa conversa com Samuel sobre Saul, o Senhor disse:

“Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (I Samuel 16:7).

Isto é o que nos está vedado, que é uma prerrogativa divina.

Quanto aos comportamentos que vemos à nossa volta, sejamos rigorosos e criteriosos ao ajuizá-los segundo a norma que Deus estabeleceu. E não se esqueça que ajuizar não implica necessariamente acusar e condenar…

Fonte: O Tempo Final

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