sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Há pastores e pastores. E há astrólogos

Respeito o jornalista Ulisses Capozzoli e mais ainda a revista da qual ele é editor, a Scientific American Brasil, uma das pouquíssimas revistas verdadeiramente científicas neste país e que ocupou, em minha opinião, o vácuo deixado pela Superinteressante. No entanto, mesmo os admiráveis podem cometer seus deslizes e promover generalizações que, assim como a unanimidade, costumam ser burras. No artigo “Sobre pastores e astrólogos”, publicado no site Observatório da Imprensa, Capozzoli cai na tentação da generalização e coloca pastores e astrólogos no mesmo palco, como protagonistas de um espetáculo que envolve, na pior das hipóteses, o charlatanismo, e, na melhor, a ilusão. Em parte, ele está certo.

Segundo ele, crianças que desconfiam do “fato” de que o Universo teria 14 bilhões de anos, “influenciadas pelo criacionismo e interpretações fundamentalistas religiosas do mundo” [na verdade, criacionistas não são unânimes quanto à idade do Universo], correriam o risco de voltar à idade das trevas, já que estariam “mentalmente dominadas pelo dogmatismo de fundo religioso”. Capozzoli se admira de um palestrante que respeita a desconfiança cosmológica das crianças ao mesmo tempo em que critica a astrologia, como se ambas as coisas fossem impossíveis.

“A questão aqui é a seguinte: se ele [o palestrante] aceita ideias arcaicas e sem sentido [leia-se criacionismo], promessas despudoradamente falsas e ‘milagres’ deslavadamente mentirosos que uma legião de ‘pastores’ propaga diuturnamente em programas de rádio e TV, por que criar caso com a astrologia?”, pergunta o editor, para quem é contraditório respeitar “farsas que são verdadeiros casos de polícia, envolvendo estelionato, entre outros crimes, mas ao mesmo tempo não perdoar astrólogos”.

Se o conceito de pastor apresentado por Capozolli for o dos charlatães roubadores do rebanho, estou do lado dele, e por isso disse que, em parte, ele está coberto de razão. Pastores como esses são, de fato, indefensáveis. Mas o que o criacionismo tem a ver com tudo isso? O que tem a ver com os televangelistas hipócritas uma teoria que sustenta que existem evidências de design inteligente na natureza e que há um Deus Criador por trás da complexidade observada nas coisas criadas? O criacionismo procura interligar (naquilo que é possível) o conhecimento científico com o conhecimento teológico, interface essa que pode ser útil na compreensão de uma realidade que extrapola os limites das metodologias de pesquisa inventadas pelo limitado ser humano. De certa forma, os fundadores do método científico, homens do quilate de Copérnico, Galileu e Newton, defenderam algum tipo de criacionismo e foram cristãos bíblicos. Imagino que eles também se oporiam aos “pastores” a quem Capozolli critica. Eu também não engulo essa corja que denigre o verdadeiro cristianismo.

Talvez Capozolli não saiba, mas há líderes religiosos que têm se destacado na ciência. Vou mencionar apenas três. John Polkinghorne é um físico teórico inglês e clérigo anglicano. Foi professor em Cambridge de 1968 a 1979 e fez estudos em física quântica e física teórica de partículas. Em 1982, foi ordenado sacerdote da Igreja Anglicana. O pastor adventista Edwin Thiele obteve seu doutorado pela renomada Universidade de Chicago. Baseado em documentos egípcios e mesopotâmicos, ele conseguiu estabelecer uma cronologia bíblica aceita pela vasta maioria dos historiadores, sejam cristãos ou céticos, e escreveu o livro The Mysterious Numbers of Hebrew Kings. Mart de Groot é doutor em Ciência pela Universidade de Utrecht; passou a maior parte de sua vida como pesquisador na área da Astronomia e serviu como pastor adventista na Irlanda do Norte. Como se pode ver, nem todos os religiosos são “tapados”.

Capozolli diz, também, que “o horóscopo, certamente, é o remanescente da idade mágica que vivenciamos na pré-história e não completamente superado, ao contrário do que se costuma crer. A astrologia e os astrólogos não são incentivadores de guerras, ao contrário do que ocorreu e continua ocorrendo com o fanatismo religioso”. Embora o editor tente especificar o tipo de religião a que se refere fazendo uso da palavra “fanatismo”, fica na memória do leitor de seu artigo a impressão associativa de que criacionistas seriam esses fanáticos. Mas, definitivamente, não é assim. Jesus era criacionista, afinal, Se referia a Adão e Eva como personagens reais e ao dilúvio como evento histórico. Mas Jesus jamais incentivou o uso da espada, pelo contrário, ficou conhecido pelos ensinamentos pacifistas que deram ao mundo pessoas como os primeiros mártires cristãos, Francisco de Assis e Madre Tereza de Calcutá, entre muitos outros.

Capozolli acaba cometendo o mesmo erro do anticriacionista-mor Richard Dawkins que, com seu ultradarwinismo e fanatismo ateísta faz corar os ateus mais moderados. Para Dawkins, a religião (todas elas) não presta porque em nome dela foram promovidas guerras e torturas. Afirmar isso seria tão errado quanto dizer que os darwinistas são nazistas pelo fato de Hitler ter flertado com a teoria de Darwin. Ou que os comunistas ateus são genocidas pelo fato de que os regimes comunistas ateus levaram à morte muito mais gente do que as Cruzadas e a Inquisição juntas. Como disse, generalizações são burras – e injustas.

Enquanto os criacionistas podem contar com bons argumentos provindos da biologia molecular, física, arqueologia, história, filosofia e muitas outras áreas (leia bons livros para comprovar, pois o espaço aqui não permite discorrer sobre isso), os astrólogos sustentam uma pseudociência desacreditada pelas descobertas da astronomia.

Assim, é possível dizer, contrariando o título do artigo de Capozolli, que há pastores e pastores. Mas há apenas astrólogos.

Michelson Borges, jornalista e mestre em teologia

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