segunda-feira, 16 de maio de 2011

Como evitar a avalanche de apostasia

O que podemos fazer para evitar o grande número de apostasia existente em nossas congregações? O que os líderes das nossas igrejas devem fazer para que ex-cristãos retornem à casa paterna? Como fechar a porta dos fundos? Aqui, vamos refletir um pouco sobre uma das coisas que podemos fazer para evitar a avalanche da apostasia.

Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos.” (Mateus 28:19-20)

Esta é a grande comissão que temos a realizar. No processo de tal tarefa, nosso sonho é ver a igreja crescer. Entretanto, não é raro acontecer de, na admissão de cada novo membro, muitas igrejas já criarem ali um novo apóstata em potencial. No fim das contas, o que gera é decréscimo e não acrécimo. Por quê? Porque não prepararam o novo converso devidamente para, então, batizá-lo e recebê-lo como membro. E, também, porque não prepararam a igreja para receber e abraçar esse novo membro. De acordo com o livro Serviço Cristão, “O melhor auxílio que os ministros podem prestar aos membros de nossas igrejas, não é pregar-lhes sermões, mas planejar trabalho para eles.”

Mas o grande problema, como apresenta Heron Santana, através de uma pesquisa realizada por Emmanuel Guimarães, é que “esta, porém, não tem sido nossa realidade hoje”, porque, infelizmente, “os pastores estão utilizando apenas 2% de seu tempo para formação de líderes e 10% no evangelismo” (Pequenos Grupos, Teoria e Prática, 65-66). B. Lawrence, em “Autoridade Pastoral”, defende a ideia de que um pastor comprometido com a Grande Comissão ensina a todos os seus membros o que significa identificar-se com Cristo. É exatamente por isso que precisamos reduzir o crescente número de ex-cristãos
gerados pelo batismo precipitado e pelo abandono pós-batismal. Quando enfatizamos exageradamente a importância da quantidade numérica e da ênfase apenas no evento do batismo, contribuímos para que a massa humana que colocamos na igreja se desvie da fé com a mesma força e rapidez com que foi arrebanhada (RA, Maio de 2010, 3).
O fundador do seminário de teologia de Dallas, Dr. Lews Sperry Chafer, é enfático sobre este problema da superênfase numérica do evangelista. Ele menciona os estudiosos da evangelização, mostrando que eles já observaram que sempre que já se destacou demais esses atos públicos como se fossem a própria conversão em si, “houve também um aumento correspondente no número dos que desonram a Deus, os chamados ‘desviados’; e isso não é de se estranhar”, diz ele (True Evangelism, 15). “Nós, líderes, somos tentados a colher o fruto ainda verde; isso pode levá-lo a apodrecer antes de amadurecer. Precisamos abrir a mente para o fato de que crescimento de igreja e contagem numérica de batismos não são sinônimos” (RA, Maio de 2010, 3).

Em entrevista, um evangelista bem-sucedido de um dos mais desafiantes estados brasileiros, estudante de mestrado em teologia com ênfase em crescimento de igreja pelo seminário do Unasp, disse-me que o índice de perda aceitável daqueles que são trazidos a Cristo por uma campanha evangelística é de, no máximo, 35%. Se acontecer “uma perda igual ou superior a 40%”, diz ele, “é preciso uma reavaliação de todo o processo, pois em tal caso estará claro o fato de que o problema está nos métodos e/ou no evangelista e não nas pessoas que receberam o evangelismo.”

Mas nem sempre essa é a prática que acontece. Infelizmente. Tenho um amigo que diz ser aceitável aumentar esse índice para até 99,5%. Quando isso acontece, as consequências são drásticas, pois uma comunidade cristã que tem muitos apostatados tende a levar uma vida carregada de sérios traumas sócio-religiosos-espirituais. Uma grande denominação cristã, em determinada região, revelou que num ano específico registrou 294.784 pessoas que se decidiram por Cristo. Mas, um estudo posterior mostrou que, dentre essas pessoas, apenas 14.337 realmente continuaram em comunhão com a igreja.  Apesar disso, a exagerada ênfase nos números continua. Refletindo sobre isso, Erwin Lutzer diz: “Mesmo assim, o processo de registrar esses números extraordinários continua, sem que ninguém se pergunte o que houve de errado.” Entendendo que os nossos números e os números de Deus não são exatamente iguais (talvez não cheguem nem perto), D. L. Moody recusava-se a contar o número de decisões, porque ele tinha consciência desses problemas que a contagem numérica traz (De Pastor Para Pastor, 108-109).

De acordo com o professor universitário Luiz Carlos Lisboa Gondim,
Deus ficaria mais satisfeito com seis pessoas inteiramente convertidas à verdade, do que com sessenta fazendo uma mera profissão de fé, mas não estando de fato convertidas. Satanás não se perturba com o grande número de pessoas batizadas – se aqueles que batizamos não estão completamente convertidos nem treinados. Para os seus objetivos, quanto mais pessoas inconversas e não instruídas estiverem na igreja, melhor será (cf. Guia Para Ministros).
Rubem M. Scheffel, na página 216 do livro de meditações matinais de 2010, Com a Eternidade no Coração, nos lembra de um conselho inspirado:
Grande erro é confiar em sabedoria humana, ou em números, na obra de Deus. O trabalho bem-sucedido para Cristo não depende tanto de números ou talentos, como da pureza de desígnio, da genuína simplicidade, da fervorosa e confiante fé (O Desejado de Todas as Nações, 370).
A igreja tem a tendência de abandonar o recém-batizado justamente porque valorizamos demais, extremadamente, o evento batismal. Com isso, perdemos a oportunidade de ensinar a igreja a ser uma comunidade que abraça. Não é o ato de banhar as pessoas em um rito batismal, sem ter clareado sua compreensão sobre os ensinos da igreja que fará com que elas fiquem na igreja.
Os pastores que apreciam agradar os homens… deviam humilhar o coração perante Deus, pedindo perdão por sua incredulidade e falta de coragem moral. Não é por amor que eles abrandam a mensagem que lhes é confiada, mas porque são indulgentes para consigo mesmos e amam a vida fácil [sic] (Reflexões Pastorais, 50 – cf. Profetas e Reis).
É claro que isso não acontece com todos (nem com a maioria) dos pastores. Mas, como líderes de igreja, devemos ter consciência de que esta é uma tentação que pode bater à nossa porta. Quando pararmos de valorizar apenas os números e passarmos a dar as importâncias devidas: ao preparo das pessoas em seu necessário tempo, ao amadurecimento básico para chegar-se ao batismo, ao acompanhamento fraterno da igreja para com os novos na fé e ao aprendizado do discipulado, teremos menos pessoas “apostatadas”. “É melhor ter alguém ainda não batizado como simpatizante da igreja e sendo abraçado pelos irmãos”, que ter, no cadastro de membros, o nome de alguém que, ente ele e a igreja, a única coisa que exista seja o abandono (RA, Maio de 2010, 3).

Portanto, um grande caminho que temos a percorrer é o de buscar o equilíbrio entre a quantidade e a qualidade dos discípulos que fazemos, na fase pré-batismal do processo evangelístico, ao cumprir a grande comissão de Mateus 28:19-20. Esta é a grande contribuição que podemos dar para evitar fazer com que nossos queridos que trazemos para Cristo O abandonem sem nem ao menos tê-Lo conhecido. Se assim o fizermos, teremos muito menos pessoas frustradas, tanto dentro quanto fora da igreja.

Não tenha pressa de atribuir grande peso eclesiástico à pessoa que você está trazendo para Jesus. É muito importante que você traga-a para a igreja e que ela permaneça. Se você prepará-la melhor no processo do pré-discipulado, as chances de que ela permaneça como discípula se multiplicarão. E o que é melhor, tê-la apenas por um dia ou para sempre?

Um abraço, Pastor Valdeci Júnior

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