sábado, 14 de maio de 2011

Adventismo Histórico?

Brasília, DF … [ASN] Ministérios independentes e grupos dissidentes buscam espaço nas congregações adventistas sob a alegação de serem os genuínos arautos do assim chamado “adventismo histórico”, que precisa ser pregado a uma igreja supostamente em apostasia doutrinária. Alguns desses ministérios e grupos definem adventismo histórico como a rejeição da doutrina da Trindade e da personalidade do Espírito Santo. Suas principais características são consideradas em um artigo publicado anteriormente.1 Outros ministérios e grupos, mesmo aceitando a existência da Trindade, alegam que Cristo assumiu uma natureza humana caída, com a mesma tendência natural para o pecado dos demais seres humanos.

O presente artigo provê uma breve análise crítica deste segundo segmento, da perspectiva do seu apelo à história adventista; do seu uso da Bíblia e dos escritos de Ellen G. White; de sua suposta relevância para a mensagem adventista, bem como do perfil ético dos seus postulados.

Quão histórico é o adventismo histórico? – As exposições históricas produzidas pelos adventistas históricos dão a impressão de que todos os pioneiros acreditavam exatamente como eles, sem vozes divergentes; e que a publicação do livro Questions on Doctrine [Questões Sobre Doutrina], em 1957, introduziu no seio da denominação a assim chamada “nova teologia” apóstata. Críticas são feitas também a D. E. Rebok, que revisou em 1949 o clássico livro Bible Readings for the Home Circle (publicado em português como Estudos Bíblicos), suprimindo do seu conteúdo a afirmação de que Cristo veio em “carne pecaminosa” como a dos demais descendentes de Adão. Mas nenhuma alusão é feita ao fato de que tal afirmação, não sendo parte do conteúdo original do livro (publicado desde 1889), foi incorporada a partir da edição revisada de 1914!


Entre as incoerências históricas do segmento em discussão existem duas que merecem ser destacadas. Primeira, como a teoria de que Cristo veio em carne pecaminosa floresceu entre os antitrinitários, os adventistas históricos, por uma questão de coerência, deveriam também aceitar o antitrinitarianismo, negando assim a coeternidade de Cristo com o Pai e a personalidade do Espírito Santo. Segunda, o forte apego dos adventistas históricos à tradição da igreja, como determinante da verdade, acaba suscitando a indagação: Não estariam os adventistas históricos atribuindo à tradição adventista a mesma autoridade que o maior poder eclesiástico atribui à sua própria tradição? Seja como for, devemos aceitar da tradição adventista apenas os componentes que estão em plena conformidade com os ensinos da Bíblia e dos escritos de Ellen G. White, interpretados adequadamente.

Quão inspirado é o adventismo histórico? – Todos os movimentos dissidentes da Igreja Adventista do Sétimo Dia, ao longo das décadas, sempre buscaram validar seus postulados na Bíblia e nos escritos de Ellen G. White, e o adventismo histórico não é uma exceção. Mas uma análise mais detida desse movimento evidencia leituras tendenciosas e parciais dos textos inspirados. Como os antitrinitários enfatizam os textos que falam apenas do Pai e do Filho, em detrimento daqueles que mencionam o Pai, o Filho e o Espírito Santo, assim também o segmento da natureza humana caída de Cristo enfatiza os textos que parecem endossar sua posição em detrimento daqueles que mencionam que Cristo não tinha tendência para o pecado.

A grande maioria dos teólogos adventistas concilia as várias declarações inspiradas sobre a natureza humana de Cristo afirmando que ela era física e morfologicamente enfraquecida pelo pecado, mas espiritual e moralmente sem tendência ao pecado. Mas, alegando que essa posição apresenta um Cristo híbrido e sem possibilidade de ter sido tentado, os adventistas históricos preferem ficar apenas com as declarações que favorecem suas teorias. A postura deles pode ser humanamente lógica e atrativa; mas é, ao mesmo tempo, parcial e seletiva em sua interpretação dos textos sagrados. Sem dúvida, como o primeiro Adão foi tentado sem ter uma natureza humana caída, assim o segundo Adão (Cristo) também o foi, “mas sem pecado” (Hb 4:15).

Quão relevante é o adventismo histórico? – Um estudo detido do desenvolvimento das doutrinas adventistas revela que o verdadeiro “adventismo histórico” abrange todo o sistema de verdades presentes, desenvolvidas em duas etapas. O período “pós1844” foi caracterizado pela definição de doutrinas distintivas da fé adventista como a lei e o sábado, a segunda vinda de Cristo, o sacerdócio de Cristo no santuário celestial e a imortalidade condicional do ser humano.2 No período pós-1888, a mensagem adventista foi enriquecida com maior ênfase nas doutrinas evangélicas da salvação pela graça mediante a fé, da plena divindade de Cristo e Sua coeternidade com o Deus Pai, bem como do Espírito Santo como a terceira Pessoa da Divindade.

A tentativa de redefinir o adventismo histórico da perspectiva do antitrinitarianismo ou da natureza humana caída de Cristo, importante como possa parecer, acaba reduzindo o amplo espectro da mensagem adventista. Esta é, sem dúvida, mais uma estratégia satânica para desviar a atenção do amplo sistema de verdades presentes, concentrando-a apenas em um de seus componentes. Com isso, grande parte da energia da igreja, que deveria ser gasta na evangelização do mundo, acaba sendo consumida por infindáveis discussões internas. Ellen G. White adverte: “Se Satanás for capaz de manter homens ocupados em responder às objeções dos oponentes, impedindo-os assim de realizar a mais importante obra para o tempo atual, seu objetivo será atingido.”3

Quão ético é o adventismo histórico? – Muitos adeptos do adventismo histórico têm assumido uma atitude extremamente crítica e belicosa para com a igreja e sua liderança. Alguns deles insinuam que a liderança da igreja acabou apostatando com a publicação do livro Questions on Doctrine, em 1957. Um de seus mais importantes líderes chegou mesmo a afirmar que o referido livro “atingiu o adventismo do sétimo dia com uma destruição doutrinária equivalente a um milhão de bombas atômicas”. Uma vez que o livro está disponível em português,4 seria oportuno que o leitor analisasse a validade de tais alegações à luz do próprio conteúdo do livro.

É certo que existem alguns teólogos, pastores e líderes que favorecem a noção de que Cristo assumiu uma natureza humana com tendência para o pecado, mas que não fazem disso uma arma para atacar a igreja e sua liderança. Aqueles que usam os nomes dessas pessoas para justificar sua belicosidade dissidente estão sendo desonestos para com a postura ética de tais líderes. Devemos lembrar ainda que, de acordo com o Manual da Igreja, um membro com postura independente ou separatista pode ser, inclusive, motivo de disciplina eclesiástica.5

Sempre que surgirem indivíduos e ministérios propondo reformar a Igreja, devemos primeiramente avaliar seus postulados e atitudes à luz dos conselhos de Ellen G. White no livro Testemunhos Para Ministros, p. 15-62. Devemos observar também se tais ministérios promovem a humildade pessoal (Mt 23:12), a alegria da salvação (Sl 51:12) e a unidade da igreja (Jo 17:20-23). Acima de tudo, devemos confiar na liderança divina. De acordo com Ellen G. White: “Não há nenhuma necessidade de duvidar, de estar temeroso de que a obra não seja bem-sucedida. Deus está à frente da obra, e porá tudo em ordem. Caso haja coisas necessitando serem ajustadas na direção da obra, Deus atenderá a isso, e trabalhará para endireitar todo erro. Tenhamos fé que Deus vai conduzir a nobre nau que transporta Seu povo, em segurança, para o porto.”6

Alberto Timm é reitor do SALT e coordenador do Espírito de Profecia da Divisão Sul-Americana

O artigo originalmente foi publicado na edição de maio da Revista Adventista

Referências
1. Ver Alberto R. Timm, “Hermenêutica antitrinitariana moderna: análise metodológica”, Parousia (Unasp-EC), ano 5, nº 1 (1o semestre de 2006), p. 47-59.
2. Ver Alberto R. Timm, O Santuário e as Três MensagensAngélicas: Fatores integrativos no desenvolvimento das doutrinas adventistas, 5a ed. (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2009).
3. Ellen G. White, Obreiros Evangélicos, p. 376.
4. Ver Questões Sobre Doutrina, edição anotada (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2009). Cf. Alberto R. Timm, “Questões Sobre Doutrina: História e impacto na Divisão Sul-Americana”, Parousia, ano 7, nº 2 (2o semestre de 2008), p. 95-109.
5. Manual da Igreja Adventista do Sétimo Dia, ed. rev. em 2005 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2006), p. 195.
6. Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 390.

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