sábado, 2 de outubro de 2010

Os cultos atuais mostram a cegueira dos corações

Por: A. W. Tozer

A Transcendência Divina

Quando falamos da transcendência de Deus, queremos dizer naturalmente que Ele é exaltado muito acima do universo criado, tão acima que o pensamento humano não pode concebê-lo.

A fim de poder pensar acertadamente a esse respeito, temos de ter em mente que "muito acima" não se refere à distância física da terra, mas à qualidade de existência. Não nos preocupamos com a localização no espaço nem com a altitude, mas com a vida.

Deus é espírito, e para Ele a magnitude e a distância nada significam. Nós as utilizamos como analogias e ilustrações, e assim Deus Se refere constantemente a estas palavras quando fala à nossa limitada compreensão. As palavras de Deus em Isaías: "Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade", nos dão uma impressão distinta de altitude, mas isso é porque nós que habitamos num mundo de matéria, espaço e tempo, temos a tendência de pensar em termos materiais e só compreendemos as ideias abstratas quando elas se identificam de alguma forma com coisas materiais. Em sua luta para libertar-se da tirania do mundo natural, o coração humano precisa aprender a traduzir a linguagem que o Espírito usa para nos instruir, traduzir de forma ascendente.


É o espírito que dá significado à matéria e separado do espírito nada tem valor, afinal. Uma criancinha se afasta dum grupo de acampantes e se perde numa montanha, imediatamente toda a perspectiva dos membros do grupo se transforma. Toda a admiração que momentos antes eles estavam demonstrando pela natureza dá lugar ao desespero pela perda da criança. O grupo se espalha pela montanha, chamando o nome da criança e procurando ansiosamente em todo canto remoto onde a pequenina pudesse esconder-se.
O que causou essa mudança súbita? A montanha coberta de árvores belas ainda se levanta até as nuvens com sua beleza arrebatadora, mas ninguém mais a nota. Toda a atenção se focaliza na busca duma meninazinha de cachos loiros, que não tem nem dois anos e que pesa menos de quinze quilos. Embora tão nova e tão pequenina, ela é para os seus pais e amigos é mais preciosa do que toda a antiga e imensa montanha que admiravam poucos minutos antes. E todo o mundo civilizado concorda com o seu ponto de vista, pois a meninazinha pode amar e rir, falar e orar, e a montanha não. É a qualidade da existência da criança que lhe confere valor.

Não devemos, porém, comparar a existência de Deus com outra qualquer, como há pouco comparamos a montanha com a criança. Nem devemos pensar em Deus como o mais elevado numa ordem crescente de seres, começando duma única célula e passando do peixe à ave, ao animal, ao homem, ao anjo ou querubim, e chegando afinal até Deus. Isso daria a Deus eminência, e até mesmo preeminência, mas não basta. Precisamos dar-lhe transcendência, no sentido mais amplo da palavra. Deus está sempre à parte, em Sua luz inatingível. Está tão acima de um arcanjo [anjo] quanto duma lagarta, pois o abismo que separa o arcanjo [anjo] da lagarta é finito, enquanto o abismo que separa Deus e o arcanjo [anjo] é infinito. A lagarta e o arcanjo [anjo], embora muito distantes um do outro na escala das coisas criadas, mesmo assim estão unidos pelo fato de terem sido ambos criados. Os dois pertencem à categoria daquilo que não-é-Deus e estão separados dEle pela própria infinitude.

Dentro do coração que quer falar a Deus, lutam sempre a compulsão e a reticência.
Como ousarão os mortais pecaminosos
Cantar a Tua graça e Tua glória?
Sob os Teus pés prostramo-nos, distantes,
E vemos só as sombras da Tua face.
ISAAC WATTS

Nós nos consolamos, no entanto, com a ideia de que é Deus que coloca em nossos corações o desejo de buscá-lO, tornando possível conhecê-lO em parte, e Ele se agrada do mais frágil esforço para torná-lO conhecido.

Se algum observador ou santo que tivesse passado séculos ao lado do mar de fogo descesse à terra [exemplo Moisés, Enoque, Elias], como seria sem significado para ele a tagarelice incessante dos homens. Como lhe seriam estranhas e como pareceriam vazias as palavras triviais, áridas e inúteis que hoje se ouvem na maioria dos púlpitos todas as semanas. E se esse alguém fosse falar aqui na terra, não falaria sem dúvida de Deus, fascinando os seus ouvintes com as descrições extasiadas da Divindade? E depois de ouvi-lo, será que consentiríamos novamente em aceitar qualquer coisa inferior à teologia, a doutrina de Deus? Não exigiríamos depois de tal experiência, que nos falassem tão-somente da visão do próprio Deus ou então que se calassem totalmente?

Ao ver a transgressão do ímpio, o coração do salmista lhe revelou o que acontecera. "Não há temor de Deus diante dos seus olhos". Ao dizer isso, ele expôs a psicologia do pecado. Quando os homens deixam de temer a Deus, transgridem as Suas leis sem hesitação. O medo das conseqüências não detém o pecado quando desaparece o temor de Deus.

Nos tempos antigos era dito que os homens de fé "andaram no temor de Deus" e "serviam ao Senhor com temor". Por mais íntima que fosse a sua comunhão com Deus, por mais ousadas fossem as suas orações, sua vida religiosa apoiava-se no conceito de um Deus aterrador. Essa concepção de um Deus excelso desenvolve-se através de toda a Bíblia e dá tonalidade e cor ao caráter dos santos. Esse temor a Deus era mais que um medo natural do perigo; tratava-se de um temor irracional, um sentimento agudo de insuficiência pessoal na presença do Deus Todo-Poderoso.

Em todas as ocasiões em que Deus aparece aos homens nos tempos bíblicos os resultados foram os mesmos — uma sensação esmagadora de terror e espanto, um sentimento opressivo de pecado e culpa. Quando Deus falou, Abraão se lançou ao chão para escutar. Quando Moisés ouviu o Senhor na sarça ardente, escondeu o rosto temeroso para não vê-lo. A visão que Isaías teve de Deus, fê-lo exclamar: "Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros".

O encontro de Daniel com Deus foi talvez o mais terrível e maravilhoso de todos. O profeta levantou os olhos e viu Aquele cujo "corpo era como o berilo, o seu rosto como um relâmpago, os seus olhos como tochas de fogo, os seus braços e os seus pés brilhavam como bronze polido, e a voz das suas palavras como estrondo de muita gente. Só eu, Daniel, tive aquela visão; os homens que estavam comigo nada viram, não obstante, caiu sobre eles grande temor, e fugiram e se esconderam. Fiquei, pois, eu só, e contemplei esta grande visão, e não restou força em mim; o meu rosto mudou de cor e se desfigurou, e não retive força alguma. Contudo, ouvi a voz das suas palavras; e ouvindo-a, caí sem sentido, rosto em terra" (Daniel 10:6-9).

Estas experiências demonstram que uma visão da transcendência divina acaba com toda a controvérsia entre o homem e o seu Deus. O homem perde toda a sua valentia e no final está pronto a perguntar brandamente como Saulo, depois de vencido: "Senhor, que queres que eu faça?" Em contraste, a autoconfiança da maioria dos cristãos de hoje, a frivolidade básica que se faz presente em tantas das nossas reuniões religiosas, o chocante desrespeito à Pessoa de Deus, evidenciam claramente a profunda cegueira dos corações. Muitos se chamam pelo nome de Cristo, falam muito a respeito de Deus, e por vezes oram a Ele; mas evidentemente não sabem Quem Ele é. "O temor do Senhor é fonte de vida", mas esse temor santo não é quase encontrado hoje entre os cristãos.

Certa vez, ao conversar com o seu amigo Eckermann, o poeta Goethe começou a falar de religião e mencionou o abuso do nome de Deus. "As pessoas O tratam, como se o Ser Altíssimo e Incompreensível, que se encontra além do alcance do pensamento, pudesse comparar-Se a elas. Como contrário, não fariam referências ao "querido Deus, bondoso Deus, Senhor Deus" [Contudo, Ele nos permite chamá-lo de Pai]. Estas expressões se tornam, principalmente para o clero, que as tem continuamente em sua boca, simples palavras, nome estéril ao qual significado algum é atribuído. Se estivessem realmente impressionados com a Sua grandeza, emudeceriam, e, em demonstração de reverência, evitariam nomeá-lO."

Senhor supremo, entronizado na amplidão,
Fulgura a Tua luz no sol e nas estrelas.
És Tu o centro, és Tu a alma das esferas,
No entanto, quão próximo do amoroso coração.
Senhor de toda vida, nas alturas e na terra,
Cuja luz é verdade, cujo fogo é amor,
Ante o Teu trono que a tudo ilumina,
Não temes de pedir que haja brilho em nós

Fonte Josemar Bessa

Nota: Apesar de toda a grandeza Ele se importa com cada um de nós - isso é Amor.

"Todas as nações são perante ele como coisa que não é nada; ele as considera menos do que nada, como um vácuo." Isaías 40:17

"Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos." Isaías 57:15

"Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido." Salmos 34:18

"Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." João 3:16

Hoje os cultos religiosos se transformaram em uma forma barata de manifestação humana. O que se vê é um desrespeito generalizado para com a Grandeza de Deus. São muitos aqueles que falam do que não entendem, pregam a respeito de coisas que não compreendem (ou se compreendem, o fazem de propósito, pois são mercenários e pagarão por suas ações lastimáveis). Fazem de Deus e de Sua Palavra meros coadjuvantes em seus discursos para levar milhares ao êxtase e depois extrair deles gordas ofertas. Fazem das "bênçãos de Deus" objetos de negócio. Isso realmente é uma demonstração de cegueira espiritual que contagiou muitos líderes religiosos da atualidade. Mas eles pagarão por isso se não se arrependerem de seus pecados.

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