terça-feira, 21 de setembro de 2010

Usem as armas

No serviço militar é comum a participação do soldado em bivaques ou exercícios de guerra. Como em qualquer nova atividade, a primeira vez é a mais estressante, requerendo maior atenção, afinal ninguém deseja errar. Todos têm medo das consequências de uma derrota, mesmo que essa seja apenas simulação.

Certo grupo de militares recebeu como missão conquistar uma colina. Para tanto necessitavam transpor parte do percurso em campo aberto, sob o ataque inimigo – de mentirinha, é claro – com balas de festim e bombas de farinha (deve ser esse o nome). Depois de orientá-los quanto às estratégias a serem seguidas, o oficial-comandante desse destacamento frisou: “Em momento algum fiquem estáticos. Movam-se rapidamente em ziguezague. E não se esqueçam: usem as armas, atirem contra o inimigo. Gastem toda a munição. Defendam-se e ataquem. Avante, em frente e para cima, em direção ao alvo.”


Entre os muitos soldados de elite em combate simulado, estava o jovem curitibano Nelti Gonçalves de Souza, hoje advogado e assessor parlamentar na capital paranaense. O ar seco do cerrado do Brasil Central, aliado à elevada temperatura de março, parecia deixar fuzil (FAL), munição, capacete, coturnos, mochila e uniforme camuflado mais pesados. A tensão crescia à medida que desciam um morro, entre os arbustos secos e retorcidos, alguns repletos de espinhos, no sentido do descampado, no qual, certamente, seriam fáceis alvos do inimigo entrincheirado. Chegando à zona de perigo, a última recomendação, dessa vez do sargento, lembrando-lhes as ordens superiores: “Corram em ziguezague. Não deixem de utilizar suas armas. Atirem contra o inimigo.”

Se vocês não fizerem isso, eles o farão. O trabalho realizado pelos militares acostumados aos treinos é tão bem-executado, que os soldados neófitos, em determinado ponto do exercício, têm a plena certeza de que uma batalha realmente ocorrerá e que suas vidas estão por um fio. Sentem a presença de um inimigo, não mais imaginário – para eles. A dor de um suposto ferimento aumenta-lhes o temor, mas também lhes acende a coragem, o desejo de vencer e conquistar o objetivo que lhes foi confiado. Ao iniciarem a corrida pelo campo vazio, uma chuva de tiros caiu sobre eles. O pipocar das metralhadoras e o ribombar de canhões aceleravam a velocidade. O jovem soldado, encharcado de suor, com dificuldades para puxar o ar rarefeito do Centro-Oeste, conseguia sorver suas últimas reservas de energia e ziguezaguear atrás de seus companheiros.

Já na colina, protegidos por arbustos, a vitória se tornou mais fácil. Depois dos elogios do comando, restava-lhes ainda um último teste: “Todos deverão acionar o gatilho das armas”, ordenou o oficial.

O primeiro soldado pressionou e… nada. Nenhum tiro. O segundo, ao tentar disparar… apenas um tiro. O terceiro, o valente representante da Terra dos Pinheirais no Planalto Central, lembrou-se das ordens – usar as armas. Com o rosto rubro de vergonha, finalizou o treinamento com uma tremenda rajada de balas.

Colocara em risco sua vida e a dos companheiros. Não cumpriram à risca todas as recomendações recebidas.

As eleições de 3 de outubro se aproximam, e o eleitor deve ser instruído a usar sua arma contra o inimigo – o mau político -, por meio do voto. Se após tantos anos de salários corroídos, leis injustas, violência, desamparo na educação e saúde, o povo não aprendeu a se defender, não poderá protestar mais tarde se a sua arma estiver carregada.

Ruben Holdorf

Publicado originalmente em Outra Leitura

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