sábado, 25 de setembro de 2010

Eleitor em três fases

Considere três definições a respeito das eleições. Financista e assessor da Casa Branca no início do século, o judeu-americano Bernard Baruch aconselhou os eleitores a votarem “no candidato que prometesse menos”, afinal a decepção seria menor. Este é um modo um tanto omisso de se tratar coisa tão séria e comprometedora quanto os destinos políticos de qualquer nação. O último ditador brasileiro, João Figueiredo, rotulou os brasileiros de relaxados, pois “um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar”. Com certeza, se o governo tivesse investido um pouco mais na educação e saúde do brasileiro, em condições políticas normais e democráticas, povo esclarecido em hipótese alguma elegeria o próprio Figueiredo.

Gente dessa estirpe só alcança o poder pela força, trapaça ou ignorância da plebe. “Instrumento e símbolo do poder de um homem livre para fazer um pateta de si mesmo e um estrago em seu país”, complementa o escritor norte-americano Ambrose Bierce, referindo-se à eleição, na qual cidadãos pouco entendidos e desinteressados em política, ou pobres iludidos – ao pé da letra -, tentam melhorar a sociedade. O horário eleitoral gratuito e obrigatório se tornou um amargo veneno receitado às massas.


A mentira e o baixo nível das discussões dos problemas nacionais são amplamente divulgados pelos candidatos à Presidência, governos estaduais, Congresso Nacional e Assembleias Legislativas, esquecendo-se da apresentação das possíveis soluções e projetos coerentes. Mirabolantes campanhas ofuscam a visão do eleitor, enaltecendo apenas a imagem daqueles que prometem, mas jamais cumprem a palavra.

No primeiro instante, o eleitor enamora-se do candidato, assim como ocorreu no caso Fernando Collor de Mello. É a fase do romantismo, quando o cidadão ama à primeira vista o autor de promessas e ideias mirabolantes. Zé Bonitinho consegue monopolizar a atenção. Sob o visual de integridade e honestidade, esconde-se o monstro que sempre agiu na penumbra. O eleitor atua como adolescente desobediente. Não atenta aos conselhos dos mais experientes. Só descobre a perda da virgindade quando o ventre ganha novos contornos. Enamorar-se pelo candidato virou rotina nas eleições brasileiras. Separado pelas circunstâncias, o votante sonha com o presidente, o governador, o senador, os deputados e promessas utópicas. Até sexo rola na mente entorpecida e hipnotizada pela argumentação sutil e sagaz.

Após o pleito eleitoral e a posse dos candidatos, quando o efeito eclipse desaparece aos poucos, o eleitor começa o período de realismo. Não acredita no ato precipitado que cometera na urna. Arrepende-se porque percebe a traição e sente a gélida lâmina penetrando suas costas. Desesperado, protesta. Mas é tarde. Não há mais retorno. Os números escolhidos na tecla eletrônica só têm direção única. O realismo pode conduzir a dois extremos: à reflexão, quando o eleitor faz juras de vingança, prometendo responsabilidade em outra oportunidade e à loucura, desespero, boicote, engajamento ao movimento do voto nulo ou branco, ao escracho, omissão política. Primeiro o romantismo cego, depois o realismo tardio e, por último, o reumatismo.

Nesta terceira fase, o eleitor se deprime. A musculatura e tendões da consciência doem. Imagina que o voto nas eleições trará consequências irreversíveis. E por se conformar tão facilmente com a derrota, a mente se cauteriza e se condiciona a errar indefinidamente. Vive reclamando da classe política, das leis, dos impostos, da inflação, dos miseráveis salários, da falta de educação, da insegurança, do custoso transporte, da inacessível casa própria, mas em momento algum solicita auxílio para curar a doença destruidora da cidadania: a asnice em votar em quem não presta.

Ruben Holdorf

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