sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Cidadania cristã, antídoto à má política


Às vésperas de qualquer eleição, uma palavra que sempre vem à tona e está na boca da maioria dos candidatos a cargos é cidadania. O problema é que o conceito da palavra tem sido desvirtuado e até banalizado. Se recorrermos à história, veremos que, na Grécia antiga dos grandes filósofos, eram considerados cidadãos aqueles que estivessem em condições de opinar sobre os rumos da sociedade. Evidentemente, o conceito foi sendo enriquecido ao longo dos anos e recebeu importantes contribuições, também dos pensadores romanos, mas principalmente após a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos da América. Um aspecto, no entanto, está bem claro em todas estas linhas de pensamento: a cidadania pressupõe participação ativa e não apenas reativa ou passiva diante da sociedade em que se vive.

Quando trazemos isso para a vida prática, principalmente falando de eleições, um primeiro pensamento é o de que participar ativamente é somente ser candidato a algum dos cargos eletivos em disputa. Mas a cidadania não se resume ao envolvimento com questões partidárias; consiste em não se omitir diante da participação que pode alterar ou redefinir os rumos da vida, seja na cidade, no estado ou no país. E esta cidadania tem base na Bíblia – cristãos devem saber que podem participar da sociedade ao seu redor e fazer a diferença.

Deus criou as pessoas e as colocou em um contexto social. Permitiu que se organizassem em grupos, núcleos, famílias e, por fim, cidades, estados, nações e regiões continentais. E toda essa movimentação envolve leis, normas, regulamentos, diretrizes e liderança. Essa ideia permeia toda a Bíblia, mas é especialmente perceptível na peregrinação do povo de Israel, sob o comando de Moisés e seus sucessores. A sociedade sem governo, sem direcionamento, sem uma “cabeça” de coordenação não fazia parte dos planos divinos. É bem verdade que nem sempre Israel possuiu um rei, mas havia líderes que, sob estrita orientação divina, conduziram o povo em relação aos aspectos civil, militar e religioso. Diante dessa realidade e do que a Bíblia e os escritos inspirados de Ellen White afirmam, o que significa ser cidadão cristão?
Cristãos têm compromissos éticos e morais – Em Mateus 5:14, é dito que “vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte” (Almeida Edição Contemporânea). Honestidade, bondade e humildade no trabalho, nos estudos e na vida particular, motivados por amor a Deus, são fortes argumentos a favor da cidadania cristã. Se um cristão revelar, em seu estilo de vida, os princípios pregados por Jesus Cristo e sintetizados em trechos, como o sermão do monte, dará uma relevante contribuição para uma sociedade melhor. O exemplo aliado ao discurso tem força. A ética cristã, se vista de forma pragmática, fala muito mais do que as palavras. Se existem políticos corruptos que ocupam cargos importantes é porque grande parte das pessoas os escolheu. Os líderes refletem, muitas vezes, seus liderados e as respectivas escolhas feitas. Daniel e José, personagens bíblicos que não foram eleitos por voto, mas se tornaram influentes na atmosfera política do Egito e da Babilônia antigos, são boas referências. Trabalharam com foco e se tornarem boas influências, a despeito das adversidades encontradas, como o paganismo, a sensualidade barata e a ganância dos imperadores. Egito e Babilônia tiveram êxito no período em que os dois administradores cristãos estiveram à frente dos negócios reais. E, acima de tudo, suas realizações foram marcadas por uma decidida dependência de Deus e apego aos princípios, sem prejuízo ou ataque aos inimigos.
Cristãos devem votar em candidatos com princípios – Em obediência às leis, os cristãos, bem como as demais pessoas de outras crenças ou mesmo as que se consideram sem crenças, são obrigados a votar no Brasil. O respeito às autoridades constituídas é bíblico (Romanos 13: 1,2), desde que estas não se coloquem contra princípios de Deus. Isso, no entanto, não exime os cidadãos cristãos de votarem com consciência social e espiritual. Ellen White, escritora norte-americana que os adventistas consideram inspirada divinamente, diz, no livro Fundamentos da educação cristã, à página 475, que “o Senhor quer que Seu povo enterre as questões políticas. Sobre esses assuntos, o silêncio é eloquência. Cristo convida Seus seguidores a chegarem à unidade nos puros princípios evangélicos que são positivamente revelados na Palavra de Deus.” A afirmação é forte e certeira no sentido de não basearmos as esperanças na política secular e nem nos partidos políticos, tampouco colocar as questões políticas e partidárias como prioridade de vida. E realmente neles não reside esperança para uma vida melhor, mas somente em Deus.
Por outro lado, a respeito do dever cidadão, Ellen White também deixou registrado, no livro Obreiros evangélicos, página 387, que “todo indivíduo exerce uma influência na sociedade. Em nossa terra favorecida, todo eleitor tem de certo modo voz em decidir que espécie de leis hão de reger a nação. Não deviam sua influência e voto ser postos do lado da temperança e da virtude?” Em entrevista a uma revista, o Dr. John Graz, da Associação Internacional de Liberdade Religiosa, comenta esse texto e diz que “os valores cristãos devem ser partilhados, promovidos e protegidos. Quando um programa político está em oposição aos valores cristãos, como justiça, temperança, liberdade e separação entre igreja e estado, o cidadão adventista tem que acompanhar sua tarefa de acordo com suas crenças e consciência. Recusar votar não é uma forma eficaz de contribuir para uma sociedade melhor. Algumas leis e programas políticos podem ter resultados muito negativos.”
Finalmente, os cristãos têm um importante papel a desempenhar neste mundo sob o ponto de vista da melhoria da sociedade na saúde, no meio ambiente, na segurança, na educação, na família e nas liberdades de expressão, no culto etc. São áreas em que os políticos profissionais cansam de prometer melhorias, mas que se percebe pouco avanço. Com exemplo prático de vida, voto consciente (não vendido ou cedido por interesses mesquinhos e pessoais) e envolvimento em causas humanitárias, os cristãos podem ajudar a diminuir o sofrimento deste mundo. Evidentemente, para quem lê a Bíblia com mais profundidade, sabe que o destino final deste planeta está na volta de Jesus Cristo e não no êxito dos governos deste século. Claro é o texto do apóstolo Paulo, na carta ao jovem pastor Tito, no capítulo 2 e versículos 11 a 13. Ali está escrito que “pois a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens. Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas, para que vivamos neste presente século sóbria, justa e piedosamente, aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo” (Almeida Edição Contemporânea).
Felipe Lemos
Publicado originalmente em Outra Leitura

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