sábado, 28 de agosto de 2010

Entrevista: Professor de Teologia fala sobre a relação entre Igreja e Estado


Num ano eleitoral como o que estamos vivendo, dúvidas sobre a relação entre religião e política sempre vêm à tona: candidatura de adventistas, uso do púlpito para fins políticos, afiliação a partidos políticos e a responsabilidade civil do cristão se tornam temas recorrentes. Por isso, a Revista Adventista entrevistou o pastor Márcio Costa, professor de Teologia da Faculdade Adventista da Amazônia (Faama), que acabou de retornar ao Brasil depois de morar 13 anos nos Estados Unidos.

Na América do Norte, ele teve a oportunidade de estudar Engenharia Aeronáutica, Ciência da Computação e Administração, formação que utilizou no trabalho de logística e pilotagem de aviões missionários. Depois de receber o convite para atuar na área acadêmica, cursou a graduação, mestrado e doutorado em Teologia na Andrews University, instituição em que defendeu sua tese sobre a relação da Igreja com o Estado nos escritos de Ellen G. White.

Nesta entrevista, ele explica como o conceito do grande conflito entre o bem e o mal norteou a visão da profetisa adventista sobre a relação entre política e religião, e opina sobre o posicionamento ideal dos adventistas quanto às questões civis. Márcio tem 46 anos, é casado com a enfermeira Jane Vianel e tem duas filhas: Stephanie, de 10 anos, e Giovanna, de 8 anos. Além de lecionar no seminário, atua como pastor da Igreja da Faama.


Revista Adventista: Nos primórdios do adventismo, como era vista a relação entre Igreja e Estado?
Márcio Costa: A separação entre Igreja e Estado, por causa de suas implicações para a liberdade religiosa, sempre foi uma preocupação adventista. Esse cuidado foi herdado da Conexão Cristã e do movimento milerita, por líderes como Tiago White, José Bates e Urias Smith. Porém, depois do desapontamento de 1844, as descobertas proféticas que apontaram os Estados Unidos como a segunda besta de Apocalipse 13, aumentaram essa indisposição para com o Estado. No então movimento sabatista, essa visão serviu de obstáculo contra a organização da Igreja Adventista. Alguns achavam que institucionalizar o movimento seria transformá-lo em Babilônia, ou seja, introduzir os preceitos do Estado na organização eclesiástica. Somente quando essa visão passou a atrapalhar o progresso da Igreja, os adventistas perceberam que a organização era fundamental para o cumprimento da missão, o que implicaria seguir dispositivos legais e dialogar com o Estado.

O movimento adventista vê com pessimismo a condição do mundo no futuro, pois acredita que, em última instância, apenas o estabelecimento do reino de Deus vai mudar o estado de coisas. Essa visão poderia gerar passividade social dos membros?
Esse é um perigo. Essa passividade social foi pregada pelos pioneiros durante a década de 1850 em relação ao debate sobre a libertação dos escravos. Para Uriah Smith, um dos líderes da época, o peregrino não deveria parar sua marcha em terreno estranho. Em resumo: se nosso lar não é aqui, não deveríamos nos preocupar com as coisas do mundo. Todavia, em 1860, com a candidatura de Abraão Lincoln à presidência americana com uma postura bem clara em favor da abolição da escravatura, os adventistas acabaram fazendo proselitismo a favor do voto, pois entendiam que a escravidão não consistia em mero direito do Estado, mas de uma questão moral. Na oportunidade, Tiago White argumentou que, por não haver apoio nem proibição bíblica quanto ao voto, a participação dos adventistas deveria se dar ou não de acordo com a consciência individual.

Como Ellen G. White se posicionou em relação ao trabalho social?
Em seus escritos, ela passou a defender a necessidade de o adventista se expor para a sociedade. Caso contrário, a postura indiferente poderia gerar a alienação dos interesses da Igreja em relação aos interesses do Estado, o que não é correto, pois temos preocupações similares às do Estado, como o bem-estar da sociedade. Na visão de Ellen G. White, o serviço social traz benefícios diretos e indiretos à comunidade que, por sua vez, também contribui para a pregação do evangelho. Portanto, o adventista tem a obrigação de minimizar as injustiças sociais assim como o guardião de um cego, cuja função não é apenas desviar o cego dos obstáculos, mas removê-los (Patriarcas e Profetas, p. 534).

Adventistas podem se candidatar a cargos públicos?
Ellen G. White é totalmente favorável e encoraja os jovens adventistas a ter grandes sonhos, de até promulgar leis e ocupar cargos e posições de grande influência. No entanto, ela adverte que, tal qual José no Egito, a religião deve ser o esteio de todas as decisões. Não pode haver incoerência entre o exercício da função e a prática da fé. Para ela, é a fidelidade às crenças bíblicas que pode levar um político adventista à notoriedade, e não a barganha dos seus princípios (Fundamentos da Educação Cristã, p. 83, 84).

Pode-se votar em candidatos não adventistas?
Se entre dois candidatos, o primeiro é favorável ao casamento homossexual, venda indiscriminada de bebida alcoólica e se mostra favorável ao aborto. E se, ao contrário, o segundo candidato se mostra conservador em relação as essas questões morais, devemos ficar com o último. Se assuntos morais são o divisor de águas da eleição, devemos nos posicionar. Se esses temas forem levados a plebiscitos, Ellen G. White aconselha que votemos até em dia de sábado, se necessário. O voto, portanto, é um dispositivo que a democracia nos dá de representar a vontade de Deus. Logo, não deveríamos eleger candidatos moralmente intemperantes, desequilibrados, de posicionamentos contrários à Bíblia.

O que dizer de proselitismo político na igreja?
Ellen G. White é contra. A razão apresentada é simples: quando determinado político é apresentado como boa opção diante dos membros, alguém automaticamente discorda verbal ou silenciosamente, e isso gera divisão entre os irmãos. O voto é um direito do cidadão e a igreja não se opõe a que o membro o exerça, desde que reserve essa decisão à vida privada e não faça proselitismo político na igreja. Por isso, não é recomendável que candidatos, ainda que adventistas, preguem durante a campanha, pois é inevitável a associação da pessoa com seus interesses políticos, ainda que a política não seja o tema da mensagem (Testemunhos Para Ministros e Obreiros Evangélicos, p. 332, 337).

Pode a Igreja filiar-se a partidos políticos?
Creio que não, pois precisamos ter independência ideológica. Nossa prioridade não é uma agenda externa, pois já temos nossa missão. Nosso envolvimento na questão da proibição da venda de álcool na década de 1860, nos Estados Unidos, é um exemplo dessa postura. Enquanto alguns grupos defendiam uma visão politizada, pressionando os políticos, os adventistas, incluindo Ellen G. White e outros líderes da igreja, subiram aos púlpitos para defender o aspecto bíblico da questão, que vê na reforma de saúde um processo de restauração da imagem de Deus. Essa pregação distintiva levou a conversão de, por exemplo, Sarepta M. I. Henry, uma das maiores ativistas pró-temperança da época. No entanto, quando a discussão migrou para a obrigatoriedade da guarda do domingo, os adventistas se alinharam aos vendedores de bebidas alcoólicas que também desaprovavam, por interesses comerciais, a lei dominical. Não temos filiações partidárias, mas fidelidade à nossa mensagem. A Igreja sempre foi favorável aos republicanos, porque historicamente promoveram os valores da República (sistema de governo visto pela Igreja como o ideal). Mas nesse caso, a igreja se posicionou em favor dos democratas, que estavam do lado da liberdade religiosa.

Qual é o papel do Estado e da Igreja?
Para Ellen G. White, as duas instituições foram estabelecidas por Deus, em esferas distintas. Ao Estado compete a manutenção da ordem social por meio do cumprimento das leis, o que envolve punição ou recompensa e, à Igreja cabe a transformação por meio do evangelho. Muitos autores sugerem que o modelo republicano é totalmente laico, de pressupostos puramente filosóficos e seculares. No entanto, ela afirma que, na elaboração da Constituição americana, o nome de Deus não foi mencionado porque estava autoevidente e porque era a base da Carta Magna (O Grande Conflito, p. 295). Por isso, em certo sentido, a autoridade exercida pelos líderes civis também é um sacerdócio. Também por essa razão, Ellen G. White vê a relação entre Igreja e Estado de modo espiritual, a partir do contexto do grande conflito entre o bem e o mal. Para ela, nos últimos dias, as duas instituições estarão sob os ataques do inimigo de Deus, e Satanás vai usar esses dois poderes de modo especial (Testemunhos Para Ministros e Obreiros Evangélicos , p. 202, 203).

E quando a Igreja se depara com governos tiranos?
É lícito manifestar desaprovação mediante dispositivos legais e pacíficos, como o voto, etc. Podemos obedecer às leis, desde que elas não conflitem com nossos princípios. No entanto, não podemos passar a imagem de rebeldia, como no caso das greves. Outro exemplo histórico aconteceu em meados da década de 1850. A lei vigente dizia que todo cidadão que reconhece um escravo (e a identificação era fácil, por causa da cor), deveria entregá-lo à polícia, para que o foragido fosse devolvido ao seu dono. Quanto a essa lei, Ellen G. White defendeu a desobediência civil, incentivando os adventistas a arcar com as punições do Estado. Em resumo, a manifestação sempre deve ser feita de forma pacífica. O princípio equilibrado é: obediência ao cumprimento das leis seculares e fidelidade a Deus. Quando a força do mal extrapola seus limites, Deus intervém.

Como a relação entre religião e política ainda terá implicações proféticas?
Segundo Ellen G. White, o maior problema em relação à besta de Apocalipse 13 é que ela não agirá conforme seus dois chifres: republicanismo e protestantismo. Ela possui os dois cornos que representam a relação de paz entre Igreja e Estado, mas suas ações são de perseguição e intolerância, ou seja, parece cordeiro mas age como dragão (Ap 13:11). Portanto, na visão dela, o Estado não é necessariamente mau, tanto que a iniciativa de impor leis que violarão a liberdade de consciência partirá dos movimentos religiosos e não do governo (O Grande Conflito, p. 592).

Esta entrevista, na íntegra, foi publicada na Revista Adventista do mês de junho. [Equipe ASN – Wendel Lima]

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