sexta-feira, 2 de abril de 2010

Maioria dos brasileiros acredita em Deus e em Darwin

Segundo pesquisa Datafolha publicada na edição de hoje do jornal Folha de S. Paulo, a maioria dos brasileiros de 16 anos ou mais (59%) acredita que “os seres humanos se desenvolveram ao longo de milhões de anos a partir de formas menos evoluídas de vida, mas com Deus guiando esse processo de evolução”. A pesquisa foi realizada nos dias 25 e 26 de março de 2010, com 4.158 pessoas. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Uma parcela menor (25%) acredita, porém, que “Deus criou os seres humanos de uma só vez praticamente do jeito que são hoje, em algum momento nos últimos dez mil anos”, opinião diferente de outros 8%, que acreditam que “os seres humanos se desenvolveram ao longo de milhões de anos a partir de formas menos evoluídas de vida, mas sem a participação de Deus nesse processo”. Os espíritas são os que mais acreditam em um processo de evolução do homem a partir de outras formas de vida sob o comando de Deus (74% do segmento), parcela que é próxima aos 60% tanto entre os católicos quanto entre os evangélicos pentecostais e não-pentecostais. Destaca-se a parcela de umbandistas (33%) e de evangélicos pentecostais (30%) que acreditam que “Deus criou os seres humanos de uma só vez praticamente do jeito que são hoje, em algum momento nos últimos dez mil anos”. A pesquisa constatou também que, quanto maior a renda e a escolaridade, mais pessoas acreditam na interferência divina no desenvolvimento dos seres humanos.

Na quarta-feira, por indicação do repórter Reinaldo José Lopes (que me entrevistou semanas atrás), fui contatado pelo Hélio Schwartsman, da Folha, que me pediu para escrever um pequeno artigo sobre criacionismo. Leia abaixo a íntegra do que escrevi:

Criacionismo: modelo mal-compreendido

Quando nos deparamos com o desafio de explicar eventos passados únicos e irreproduzíveis – como a origem da vida e a origem do ser humano –, acabamos ultrapassando as fronteiras da própria metodologia científica. Assim, consciente ou inconscientemente, no processo de construção de modelos, utilizamos inevitavelmente conhecimento suplementar de natureza não científica (o que não significa necessariamente conhecimento anticientífico). Nesse sentido, o cientista evolucionista utilizará conhecimentos oriundos do naturalismo metafísico (componente não científico do evolucionismo). Da mesma forma, o cientista criacionista, ao procurar explicar as origens, verificará a possibilidade de se harmonizar o conhecimento científico com o conhecimento bíblico (componente não científico do criacionismo). Podemos, então, definir os dois paradigmas em questão:

Evolucionismo: possível relação funcional entre as ciências naturais e o naturalismo metafísico (pelo menos no que diz respeito aos temas sobre as origens).

Criacionismo: cosmovisão que procura integrar o conhecimento bíblico-histórico com o conhecimento científico.

Embora a maioria dos brasileiros acredite que Deus guiou a evolução, essa conclusão é contraditória, pois a noção de Deus dessas pessoas pesquisadas provavelmente provenha da tradição cristã. Só que a Bíblia que lhes fornece a base conceitual para definir Deus afirma que o Criador trouxe à existência a vida neste planeta em seis dias literais de 24 horas – e isso não está relatado apenas em Gênesis, e o próprio Jesus se refere a Adão e Eva como personagens históricos. A coerência estaria em optar entre ser naturalista ou teísta. O “meio-termo” é confusão filosófico-teológica na certa.

Dos entrevistados pelo Datafolha, 25% acreditam que Deus criou os seres humanos exatamente como são hoje. São, portanto, fixistas. Ao contrário desses, criacionistas bem informados entendem que Deus dotou os seres vivos com a capacidade de variação, o que lhes permite sobreviver em ambientes diferenciados adquirindo adaptabilidade ao meio em que vivem. A isso chamam de “microevolução” ou “diversificação de baixo nível” (níveis taxonômicos inferiores).

Assim, segundo a visão criacionista, Deus criou os tipos básicos de seres vivos e eles sofreram modificações, dentro de certos limites pré-estabelecidos, originando as formas de vida que encontramos em nossos dias. Dizer que elas descendem de um mesmo ancestral unicelular comum é extrapolação. Embora essa ideia tenha sido apresentada como verdade, não tem sido empírica e biologicamente demonstrável.

As grandes questões para as quais parece não haver respostas satisfatórias são: Qual a origem da informação complexa, aperiódica e específica? Qual a origem dos códigos zipados, encriptados, compartimentados e com uma lógica algorítmica que, hoje sabemos, tem em seres inteligentes sua única causa, suficiente e necessária? Qual a origem dos sistemas irredutivelmente complexos? Como se deu o aumento de complexidade que seria imprescindível para criar novas maquinarias e órgãos e funções necessários para migrar de uma espécie para outra? Em relação ao registro fóssil, como explicar a Explosão Cambriana com o surgimento repentino de formas de vida complexas sem ancestrais detectáveis? E como explicar a falta de formas transicionais entre os principais filos?

O criacionista, partindo da ideia de planejamento e propósito inteligentes na criação, consegue fornecer boas respostas para essas questões – mas, primeiro, precisa ser ouvido e compreendido. Portanto, vejo com bons olhos a iniciativa da Folha, ao perseguir um dos princípios básicos do jornalismo: ouvir todas as versões.

Michelson Borges
Jornalista e editor do blog www.criacionismo.com.br


P.S.: Creio que se o povo brasileiro tivesse acesso àquilo que o criacionismo verdadeiramente ensina, e se soubesse a diferença entre micro e macroevolução, os percentuais dessa pesquisa seriam outros. O ideal seria que houvesse esclarecimento por parte da mídia e que outra pesquisa fosse feita com perguntas mais específicas, afinal, a palavra "evolução" tem significados diversos, dependendo do contexto em que é aplicada ou entendida.[MB] 

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