domingo, 25 de abril de 2010

Como se reuniam os primeiros adventistas

Ao contrario do que talvez imaginamos, a vida religiosa dos adventistas modernos seria novidade para os adventistas contemporâneos de Ellen White. Especialmente se estudarmos as suas principais reuniões como igreja. A nossa formula atual é: Escola Sabatina e culto de adoração aos sábados pela manhã (principal reunião adventista, e que tem o sermão como parte principal); culto jovem nas tardes de sábado; culto evangelistico domingo à noite (que tem o sermão como parte principal) , e culto de oração nas noites de quarta-feira (que também tem o sermão como parte principal).

Com a provável exceção da Escola Sabatina, todas as nossas reuniões hoje seriam algo diferente do que praticavam os primeiros adventistas. Para discutirmos o formato de nossos cultos e nossa liturgia, devemos examinar o que aconteceu em nossa historia e como nossos cultos atuais foram moldados.


Herança adventista perdida: as Reuniões Sociais
O adventismo do sétimo dia surgiu em meados do século XIX, justamente quando a “reunião de classes” metodista estava sendo substituída pela “reunião de oração”. Anteriormente, era requerido que todos os metodistas participassem da reunião de classes semanal que acontecia em um lar, onde as pessoas compartilhavam a responsabiblidade de sua vida em Cristo. Agora, a reunião de oração emergiu como o veiculo para conseguir isso.
Parece que os primeiros adventistas, que possuíam raízes metodistas, tomaram a idéia da reunião de oração metodista para realizar as suas “reuniões sociais”. As “reuniões sociais" do adventismo primitivo se realizavam depois de um serviço de pregação, e davam oportunidade para que as pessoas compartilhassem pessoalmente o que o sermão havia transmitido.
Muitas vezes, as reuniões sociais entre os membros se realizavam também em separado e não depois da pregação. Assim, o modelo adventista parece ser uma combinação das “reuniões de classes” e das primeiras “reuniões de oração” dos metodistas depois da pregação.
Os adventistas pegaram o melhor dos dois mundo no começo: suas reuniões sociais eram conduzidas de modo similar as reuniões de oração do metodismo durante o período de transição “reuniões de classes-oração”. Enquanto essas reuniões entraram em decadência no metodismo, no adventismo primitivo elas se tornaram uma característica distintiva que se estendeu pelo mundo. As reuniões sociais eram a estrutura básica de funcionamento da comunidade adventista, e não havia muito lugar para meros espectadores nessas reuniões.

Os pioneiros e a Reunião Social
Ao ler com cuidado as primeiras edições do periódico da igreja, Advent Review and Sabbath Herald, fica claro que as reuniões sociais eram consideradas parte regular da vida eclesiástica pela maioria dos adventistas. De fato, essas reuniões parecem ter sido mais importantes para o adventismo primitivo do que os cultos de pregação. A pregação era frequentemente omitida, mas a reunião social nunca era deixada de lado.
A reunião social adquiriu a forma de testemunhos, já que os crentes compartilhavam suas lutas e suas vitórias na vida cristã com os demais. Uriah Smith definiu a reunião social do adventismo primitivo assim:
“Uma reunião caracterizada por testemunhos vivos que alentavam a alma, olhos radiantes, vozes de louvor, exortações sérias e comovedoras e frequentemente lagrimas; cenas nas quais a fé e o amor se acendiam novamente”.[1]
Nas seguintes citações, rapidamente podemos captar o espírito dessas primeiras reuniões adventistas:
“As reuniões sociais eram marcadas por grande solenidade. Os pecados eram confessados com lagrimas, e havia uma abertura generalizada diante de Deus, poderosas suplicas pedindo perdão e uma disposição para encontrar-se com o Senhor em sua vinda. E os humildes discípulos do Senhor não buscavam seu rosto em vão. Antes do fim da reunião, muitos testificavam com lagrimas de alegria que haviam buscado ao Senhor e o encontraram, e experimentaram a doçura dos pecados perdoados.”[2]
Durante uma das reuniões sociais foram dados 117 testemunhos em 53 minutos. Todos indo diretamente ao ponto.[3]
“As reuniões sociais e de oração aos sábados deveriam ser apoiadas com valor. Uma energia vigorosa e santa que emana do coração cristão deveria marcar seu progresso. Aqui, semana após semana, o seguidor do Senhor se deleita em ser encontrado, pontual e fielmente em seu postos, fazendo a sua parte alegremente, e de um rico repertorio de experiências diárias verte nas ações ordinárias sua oração de agradecimento e de suplica, uma palavra de exortação, um hino de louvor, tudo para a edificação de seus irmãos.” [4]
Havia uma franqueza nessas reuniões que dificilmente seria possível na sociedade individualizada da atualidade. As pessoas compartilhavam abertamente suas esperanças e sonhos, bem como suas lutas. Essa participação comum, não apenas de verdades doutrinarias mas de experiências cristãs, era uma parte vital do adventismo primitivo.
As reuniões sociais variavam, mas os elementos comuns eram a oração, o testemunho, as palavras de animo e o cântico. Os testemunhos eram curtos e ao ponto. No entanto, por vezes alguns recorriam a “pregação” como parte de seu testemunho (começavam testemunhando e de repente estavam pregando). Isso frequentemente provocava admoestações para que os testemunhos se mantivessem curtos e ao ponto.

Eles não estudavam a Bíblia?
Em todas as descrições das reuniões sociais adventistas falta um elemento: a menção ao estudo bíblico. Essa omissão parece assombrosa. Mas foi planejada: eles estudavam a Bíblia em outras ocasiões. A reunião social não era o momento de estudo bíblico, era totalmente relacional. E esse modelo de reunião era utilizado tanto nos pequenos quanto nos grandes grupos.
Essas reuniões eram de natureza relacional. Quase não se realizavam estudos bíblicos nelas reuniões (mas em outros momentos). Os crentes não descuidavam do estudo bíblico em grupo, que ocorria ocasionalmente, mas este sempre era seguido de uma reunião social onde podiam compartilhar sua experiência com Cristo. Tal enfoque fortaleceu os pioneiros tanto em sua compreensão da Bíblia quanto em seus relacionamentos mútuos.

Era a reunião mais importante
A importância dessa reunião era tal que muitas vezes era a única reunião religiosa a que eles assistiam. As primeiras igrejas não tinham pastores regulares. Ensinava-se as igrejas a se cuidarem por si mesmas, enquanto os pastores fundavam igrejas, evangelizavam e formavam novos grupos de crentes. Apenas ocasionalmente havia uma pastor presente e um sermão. A maioria dos sermões para os membros se davam na reunião campal anual.
Este primeiro modelo adventista de igreja apresenta muitas semelhanças com a igreja primitiva do NT. E este não foi uma desenvolvimento acidental no adventismo, mas uma estratégia deliberada, baseada em seu estudo do Novo Testamento.[5]
Como os primeiros adventistas se mantiveram na fé sem a presença constante de um pastor entre eles? De forma individual e coletiva eles estudavam a Bíblia e liam a Review. E quando se reuniam, sempre tinham uma reunião social. Por vezes tinham a Escola Sabatina, mas ela era sempre seguida por uma reunião social e não pela pregação. Foi através da reunião social que os primeiros adventistas sustentaram sua vida religiosa. Assim, criaram uma comunidade. Escutemos sua voz:
“Aqui há uma descrição inspirada de certos deveres cristãos. Deveres que, quando cumpridos adequadamente, nos fortalecerão no Senhor e na forca do seu poder. Um deles é a fidelidade na reunião social e de oração. Então, segundo esse mandato, enquanto a igreja percebe que o dia do Senhor se aproxima, vamos nos exortar mutuamente em vista disso.”[6]

Não dependiam de pregadores
Algumas cartas enviada a Review descrevem a vida da igreja adventista pioneira aos sábados:
“Cada sábado nos reunimos para orar e para a reunião social”[7]
“Ao começo de cada sábado nos reunimos para a oração e a exortação, das quais recebemos uma bênção. O sábado de manhã dedicamos a reunião social, a Escola Sabatina e a classe bíblica.”[8]
Assim, parece que na ausência de um pastor fixo, os adventistas se sustentavam por meio da reunião social, a Escola Sabatina e a classe bíblica, onde não eram meros espectadores. Apesar de dedicarem muito tempo ao estudo da Bíblia em outros momentos, as reuniões regulares da igreja tinham mais a ver com o aspecto relacional do que com o cognitivo.
As reuniões sociais não aconteciam apenas na ausência de um pregador. Mesmo depois da organização da igreja e do estabelecimento definitivo do ministério pastoral adventista, as reuniões sociais continuaram sendo o principal momento da comunidade adventista. Os primeiros adventistas lamentavam o fato de que a igreja de Battle Creek – a maior igreja – estivesse perdendo muitas bênçãos porque confiava nos sermões dos pregadores e não nas reuniões sociais para manter sua vida espiritual.
“A igreja de Battle Creek precisa menos desses pregadores do que qualquer igreja do estado pelo fato de ter mais membros ativos que todas as outras, muitos deles com vasta experiência. As vezes pregamos para eles, mas imediatamente depois concluímos que teria sido melhor uma reunião social. E quando passamos um sábado em uma outra igreja, ao voltarmos somos informados de que os irmãos desfrutaram de uma excelente reunião, a melhor de vários sábados. Assim, qual a utilidade de nós pregadores nos colocarmos no meio do caminho desses membros experimentados e ativos?”[9]
Consegue imaginar os membros da igreja dizendo que passaram melhor sem um pregador do que com um? Os próprios pregadores sentiam que estavam atrapalhando quando ocupavam o púlpito no sábado de manhã. O sábado pela manhã nas primeiras igrejas adventistas não era tanto um tempo para pregar a espectadores, mas para dar testemunhos e louvar.

Conclusão
A reunião social foi algo que o adventismo herdou do metodismo (uma mescla das reuniões de classe e de oração). Os adventistas tinham reuniões sociais em vários momentos e formatos: depois de uma pregação para um grupo maior ao sabados, depois da Escola Sabatina, depois de uma classe bíblica ou em pequenos encontros nos lares. Essas eram as principais reuniões da igreja adventista pioneira.
As reuniões sociais foram sancionadas fortemente por Ellen White (que escreveu ostensivamente sobre elas), mas entraram em declínio logo após sua morte em 1915. Gradualmente, as reuniões sociais foram substituídas pela reuniões de oração, a medida que o adventismo imitava e absorvia os modelos protestantes e evangélicos.
A reunião de oração, por sua vez, aos poucos foi se transformando em mais uma reunião de pregação ou de estudo bíblico, onde a igreja assume uma postura passiva de espectadores, de modo que perdemos a oportunidade exclusiva de testemunhar, orar e animar uns aos outros em comunidade. Hoje, há uma tentativa de se resgatar essa herança relacional adventista com o programa de Pequenos Grupos, enquanto a estrutura de cultos passivos herdados do modelo de Constantino permanece inalterada.

Esse texto foi baseado no livro de Russell Burrill, Como reavivar a igreja no século 21 (Tatuí: São Paulo, Casa Publicadora Brasileira, 2005).
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[1] Uriah Smith, Advent Review and Sabbath Herald (23 de Maio de 1865).
[2] Tiago White, Life Incidents, vol. 1 (Battle Creek, MI: Steam Press of Seventh-day Adventist Publishing Association, 1868), p. 167. (Aqui, White está falando das reuniões sociais durante o movimento milerita).
[3] J. N. Loughborough, Miracles In My Life (Reimpresso por Leaves of Autumn Books, Phoenix, AZ, 1987), p. 88.
[4] F. W. Morse, Advent Review and Sabbath Herald, t. 22, N° 15 (Battle Creek, MI: 8 de setembro de 1863), p. 114.
[5] Para maior informacao sobre o papel do ministros ordenados no Novo Testamento e no adventismo primitivo, ver a obra de Russell Burrill, A Study of the Biblical Terms for Clergy and Their Historical Development in Christianity and Adventism. Disponivel em NADEI, 9047-3 US 31 N, Berrien Springs, MI 49103.
[6] G. W. A., Advent Review and Sabbath Herald, t. 19, N° 3 (Battle Creek, MI: 17 de Dezembro de 1861), p. 20.
[7] J. Hoffer, Advent Review and Sabbath Herald, t. 28, N° 6 (Battle Creek, MI: 2 de Julho de 1861).
[8] Brother Holiday, Advent Review and Sabbath Herald, t. 28, N° 5 (Battle Creek, MI: 2 de Julho de 1861).
[9] Advent Review and Sabbath Herald, t. 20, N° 8 (22 de Julho de 1862), p. 60.

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