domingo, 24 de janeiro de 2010

Torrente de esperança


Deitado nas areias úmidas da praia do Rincão, no litoral sul-catarinense, contemplo o céu estrelado e sem nuvens. Muitas dúvidas povoam minha mente de adolescente: De onde veio tudo isso? Seria o Universo fruto de uma explosão? Diante de toda essa vastidão, o que somos? Qual o nosso valor e que sentido há naquilo que fazemos, se somos meras partículas neste oceano cósmico? As respostas tiveram que esperar mais alguns anos, mas vieram.

Em 1989, conheci um jovem adventista enquanto estudávamos no curso técnico de química, no ensino médio. Deus o usou para abrir diante de mim uma verdadeira torrente de revelações maravilhosas; uma janela para a verdade que eu tanto ansiava, mas não sabia onde encontrar. Uma a uma, minhas dúvidas foram se dissipando. Meus conceitos foram abalados e meus preconceitos, desfeitos.

As palavras de Apocalipse 14:6 e 7 pareciam saltar das páginas da Bíblia: "Vi outro anjo voando pelo meio do céu, tendo um evangelho eterno para pregar aos que se assentam sobre a terra, e a cada nação, e tribo, e língua, e povo, dizendo, em grande voz: Temei a Deus e dai-Lhe glória, pois é chegada a hora do Seu juízo; e adorai Aquele que fez o céu, e a Terra, e o mar, e as fontes das águas."


Esse evangelho eterno, pela bondade de Deus, estava me alcançando. E a mensagem garantia que existe um Deus para ser amado e respeitado. Que há um juízo e que, portanto, devemos dar conta de nossa vida ao Criador. E mais: como no ato de "copiar" e "colar", João, o escritor do Apocalipse, transportou o fraseado de Êxodo 20:8-11 para seu livro profético. Portanto, Yahweh é o Criador do céu, das estrelas, das galáxias, da Terra e de tudo o que nela há. E o sábado é um eterno lembrete desse fato.

Descobri que, apesar da desfiguração ocasionada pelo pecado, somos imagem e semelhança do Criador. Pode parecer uma constatação simples para aqueles que estão familiarizados com ela, mas, para mim, ex-darwinista, era bom demais saber disso. Eu não era um acidente biológico! Minha vida tem propósito - origem e futuro certos. Mas Deus tinha ainda muito mais para me mostrar...

Esperança presente

Um dos textos bíblicos que melhor expressam o objetivo de Deus em nos conceder a Revelação é Romanos 15:4: "Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança." Segundo Angel Manuel Rodriguez, "a esperança está tão entretecida com nossa existência, que é impossível separar uma da outra. Existir é viver em um estado de expectativa ou em uma condição de espera. [...] Se desejamos conhecer a natureza da esperança que Deus nos oferece, devemos simplesmente olhar a Cristo, em quem nossa futura esperança é uma realidade presente" (O Futuro - A Visão Adventista dos Últimos Acontecimentos [Unaspress], p. 154, 156).

Depois de descobrir que Deus não "apenas" me criou, mas que quer Se relacionar comigo, percebi que viver de acordo com a vontade dEle é simplesmente seguir a lei da causa e efeito. O manual da vida, a Bíblia Sagrada, provê as instruções necessárias para uma existência plena de significado - "vida em abundância", nas palavras de Jesus (cf. Jo 10:10). Estudando a Escritura e colocando-a em prática, pelo poder do Alto, tornei-me mais feliz, mais saudável, uma pessoa melhor e em paz (sem contar que, orientado pelo Criador, encontrei a esposa ideal e pudemos formar uma família abençoada). Mas, cada vez que me desviava da Luz, o efeito era semelhante ao que ocorre quando queremos desafiar as leis da física, achando que podemos cair para cima. Nos acertos e nos erros, aprendi que somente o caminho de Deus traz esperança e realização.

O Criador nos conhece e sabe o que é melhor para nós. O que Ele quer é que exercitemos a confiança hoje para aguardar o melhor que vem amanhã. Confiança é fé, e nas palavras de C. S. Lewis, fé "é a arte de se aferrar, apesar das mudanças de humor, àquilo que a razão já aceitou. Pois o humor sempre há de mudar, qualquer que seja o ponto de vista da razão. Agora que sou cristão, há dias em que tudo na religião parece muito improvável. Quando eu era ateu, porém, passava por fases em que o cristianismo parecia probabilíssimo. A rebelião dos humores contra o nosso eu verdadeiro virá de um jeito ou de outro. E por isso que a fé é uma virtude tão necessária: se não colocar os humores em seu devido lugar, você não poderá jamais ser um cristão firme ou mesmo um ateu firme; será apenas uma criatura hesitante, cujas crenças dependem, na verdade, da qualidade do clima ou da sua digestão naquele dia. Consequentemente, temos de formar o hábito da fé" (Cristianismo Puro e Simples, p. 49).

Não é verdade que a aparente demora da volta de Jesus às vezes fustiga nossa fé? Não é verdade que as provações e lutas da vida tendem a nos fazer sentir desamparados? Por isso, precisamos formar o hábito da fé. Precisamos crer, ainda que caiam os céus. Ter aquele tipo de fé que suporte o frio, o calor, a fome e a demora. Ter esperança.

Para Lewis, esperança é uma das virtudes teológicas. "Isso quer dizer que (ao contrário do que o homem moderno pensa) o anseio contínuo pelo mundo eterno não é uma forma de escapismo ou de autoilusão, mas uma das coisas que se espera do cristão. Não significa que se deve deixar o mundo presente tal como está. Se você estudar a história, verá que os cristãos que mais trabalharam por este mundo eram exatamente os que mais pensavam no outro mundo. Os apóstolos, que desencadearam a conversão do Império Romano, os grandes homens que erigiram a Idade Média, os protestantes ingleses que aboliram o tráfico de escravos - todos deixaram sua marca sobre a Terra precisamente porque suas mentes estavam ocupadas com o Paraíso. Foi quando os cristãos deixaram de pensar no outro mundo que se tornaram tão incompetentes neste aqui" (Ibidem, p. 51).

Esperança futura

Quando disse que conhecer a Palavra de Deus foi como abrir uma janela por meio da qual irrompeu uma torrente de esperança, eu não estava brincando. Nem nos melhores livros e filmes de ficção futurista que eu havia lido e assistido pude encontrar perspectiva de futuro tão maravilhosa. Ainda que não houvesse vida eterna, já teria valido a pena ser cristão; mas a verdade é que existe um além! O que nos garante isso? Jesus. A ressurreição dEle antecipa e assegura a nossa. A glorificação dEle aponta para a nossa futura glorificação. "Sendo que o que esperamos, o que antecipamos com grande expectativa, já está presente em Cristo, a certeza de nossa esperança está bem fundamentada e é irremovível", diz Angel Manuel Rodriguez. E eu digo amém!

A Palavra de Deus responde à pergunta sobre nossa origem, nos dá o rumo certo nesta vida, penetra o futuro distante, abrindo a cortina do tempo e mostrando o que aguarda aqueles que aceitam o plano gracioso de Deus. Recapitule comigo:

1. Volta de Jesus (Jo 14:1-3; At 1:11; Tt 2:13; Mt 24; Ap 1:7; etc.). Essa é a maior esperança que muitos cristãos têm acalentado ao longo dos séculos, afinal, o próprio Mestre garantiu: "Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros" (Jo 14:18); e Ele nunca mentiu. Sem essa promessa, todas as outras perdem sentido. Hoje podemos imaginar pela fé Jesus no santuário celestial intercedendo por nós. Mas logo chegará o dia em que poderemos encontrá-Lo nos ares, olhar nos olhos dEle, dar e receber um abraço apertado e cheio de cumplicidade. Você já pensou nas primeiras palavras que dirá ao seu Salvador nesse primeiro encontro físico?

2. Ressurreição e glorificação (Jo 5:28, 29; 1Ts 4:16; 1Co 15:51; etc.). Antes de eu nascer, meus pais tiveram o primeiro filho. Era um menino e se chamava Marcelo. Infelizmente, com apenas quatro meses de vida, o bebê faleceu. Quando meus pais sepultaram aquele corpinho, um enorme pedaço do coração deles pareceu ter ido junto para baixo da terra. Meses depois da minha conversão, tive o privilégio de estudar a Bíblia com minha mãe. Quando chegamos ao tema da ressurreição, lágrimas brotaram dos olhos dela. Como era bom saber que o Marcelinho está dormindo na sepultura e que nós poderemos reencontrá-lo!

"Ao surgirem os pequenos, imortais, de seu leito de pó, imediatamente seguirão caminho, voando, para os braços maternos. Reencontrar-se-ão, para nunca mais se separarem" (Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 260). Essa descrição da mensageira do Senhor passou a ser a cena mais aguardada por nossa família. Não quero perder esse momento por nada!

Com o corpo glorificado, sem qualquer indício dos efeitos do pecado (o único que terá esse tipo de marca nas mãos e nos pés será Jesus), os salvos serão reunidos no mar de vidro (Ap 15:2). Parentes separados pela morte se reencontrarão. Amigos separados pela distância estarão juntos para sempre. "Sua fé pode ver os amados e os que partiram, reunidos, entre os remidos da Terra. Se você for fiel, dentro em pouco estará caminhando com eles pelas ruas da Nova Jerusalém, cantando o cântico de Moisés e do Cordeiro, na fronte a coroa adornada de joias", foram as palavras de alento escritas por Ellen White ao pioneiro J. N. Andrews, que havia perdido a filhinha (cf. Nos Lugares Celestiais [MM 1968], p. 272).

3. Encontro com os heróis da fé (Hb 11:39, 40). Depois de adentrarmos os portais de pérola da Santa Cidade, em companhia de Jesus, dos anjos e dos nossos queridos, muitas outras surpresas nos aguardarão. Poderemos conhecer os grandes heróis da fé - José, Moisés, Daniel, João, Paulo e tantos outros - e ouvir dos lábios deles as maravilhas operadas pelo amor de Deus. Poderemos presenciar encontros significativos e cheios de emoção como o de Isaías com o rei Manassés (que matou o profeta), ou o de Paulo com Estevão (apedrejado na presença do então perseguidor de cristãos) - encontros que revelarão um pouco mais da profundidade da graça divina.

4. Acesso a grande conhecimento (1Co 13:12). Quando formos para o Céu, "todos os tesouros do Universo estarão abertos ao estudo dos remidos de Deus. Com indizível deleite os filhos da Terra entram de posse da alegria e sabedoria dos seres não caídos. Participam dos tesouros do saber e entendimento adquiridos durante séculos e séculos, na contemplação da obra de Deus. E ao transcorrerem os anos da eternidade, trarão mais e mais abundantes e gloriosas revelações de Deus e de Cristo" (Ellen G. White, Educação, p. 307).

Quanta coisa poderemos descobrir com os seres dos mundos não caídos! Milênios de história, pesquisa e avanços empreendidos por mentes não maculadas pelo pecado. Tudo isso estará à nossa disposição e teremos a eternidade para aprender. Aliás, visitar os mundos criados por Deus será outro privilégio dos remidos.

5. Acesso aos mundos não caídos (Hb 11:1; Rm 8:19; 1Co 4:9). Numa de suas visões, Ellen White contemplou Enoque passeando por um planeta ao redor do qual orbitam sete luas. Quando ela perguntou ao patriarca se aquele era o lar dele, ele respondeu: "Não é; minha morada é na cidade, e eu vim visitar este lugar."

Fantástico! Além de ganharmos um "apartamento" especial na Santa Cidade (cf. Jo 14:2) e podermos construir uma casa de campo na Nova Terra (cf. Is 65:21, 22), teremos acesso a mundos incontáveis pelos quais passearemos e testemunharemos do amor de Deus. Seremos verdadeiros embaixadores da capital do Universo (sim, nosso planeta será a morada de Deus; cf. Ap 21:3), falando daquilo que vivemos de modo muito concreto: a luta contra o pecado e a necessidade real de Jesus e do Espírito Santo para vencer. Nesse aspecto, seremos especiais e, por isso, cantaremos o cântico de Moisés e do Cordeiro - o cântico da nossa experiência de luta e vitória.

Esperança viva

Não tenho como discordar do grande filósofo e matemático Blaise Pascal, quando escreveu que "não é necessária grande sublimidade de alma para perceber que nesta vida não há verdadeira e sólida satisfação, que todos os nossos prazeres são mera vaidade, que nossas aflições são infinitas e, finalmente, que a morte ... nos ameaça a cada momento. ... Vamos ponderar estas coisas e depois dizer se não é fora de dúvida que a única boa coisa desta vida é a esperança de outra vida, que ficamos felizes só ao nos aproximarmos dela" (Pensées, p. 129).

Sei que muitas vezes tudo isso parece um sonho bom demais para ser real. Estamos tão acostumados com este mundo cinzento que nossos olhos resistem à contemplação da luz - das torrentes de luz que Deus insiste em enviar sobre Seus filhos. Mas precisamos "estar determinados a crer, embora coisa alguma [nos] pareça verdadeira e real", escreveu Ellen White, em Mensagens aos Jovens, p. 152.

A esperança deve acender a fé em nosso coração, afinal, "se a igreja apostólica, no começo da história da igreja, vivia a certeza escatológica, a igreja contemporânea, vivendo no fim dos tempos, deve esperar o advento com muito mais certeza. Tem que ser adventista" (Mario Veloso, O Futuro, p. 242).

Quando a dúvida bater à porta, contemple a cruz e sinta o amor de Deus manifestado por você. Pense na tumba vazia, testemunho eloquente de que nosso Deus está vivo. Busque o silêncio (Sl 46:10) e abra o coração ao Pai. Ele está exatamente no mesmo lugar, esperando por você.

Sabe, faz tempo que não me deito nas areias da praia do Rincão, mas de uma coisa agora eu sei: a esperança existe. A esperança é Jesus!

Michelson Borges

Fonte:
Outra Leitura
(http://www.outraleitura.com.br/web/artigo.php?artigo=274:Torrente_de_esperanca)

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