terça-feira, 28 de julho de 2009

CD Jovem: Cultura de massa na Igreja Adventista do Sétimo Dia?

Exposição de motivos: Interessante pesquisa sobre a influência da mídia na identidade do adventismo (no caso focada pela introdução de material áudiovisual na difusão especialmente da mensagem musical). Mais interessante ainda são os sinais observados de latente perda de foco da cosmovisão bíblica adventista do sétimo dia neste cenário, bem como das possibilidades que se descortinam considerado um quadro maior de inserção do povo do advento em um ambiente hostil às suas crenças, à manutenção da sua espiritualidade e, principalmente, de sua identidade, considerada em última instância a missão que nos foi concedida. Enfim, conclusões óbvias e profeticamente visualizadas tantas vezes pela serva do Senhor em um cenário mais amplo.

Para atender aos interesses deste espaço, principalmente em questão de agilidade e, para pontuar os contornos conclusivos do tema, transcrevemos apenas as impressões finais do autor, no entanto, o documento pode e deve ser compulsado em sua integralidade no link infra.


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Quem poderia apostar que o relógio mudaria o mundo da civilização? E quanto mais a escrita? O próprio Gutemberg, um católico fervoroso, não apostaria que sua invenção poderia ser usada de forma poderosa contra a igreja. Mas isso ocorreu. Em sua obra Tecnopólio - a rendição da cultura à tecnologia (1994), Neil Postman mostra como a tecnologia foi modificando a sociedade em vários momentos da história.

Através da premissa de que a tecnologia é um ciclo onde o homem cria o meio e o meio cria o homem, ele afirma que até as crenças mais fundamentais como a verdade e a realidade são mudadas com a tecnologia (1994, p.18). Por exemplo, a invenção do relógio por monges beneditinos entre os séculos XII e XIII possibilitou ao homem a controlar melhor às atividades do dia, como as sete orações obrigatórias dos mosteiros. Mas “o relógio foi além das paredes do mosteiro, levando uma nova e precisa regularidade à vida do trabalhador e do mercador” que tornou possível o capitalismo (1994, p.24).

E a imprensa do alemão católico romano foi usada por outro alemão, um monge, que se voltou contra o poder papal e colocou a Bíblia nas mãos do povo. A religião cristã nunca mais seria a mesma (1994, p.25). O cristianismo estava também sendo influenciado pelos meios de comunicação de massa. Como foi descrito na introdução e no terceiro capítulo deste trabalho, à medida que o cristianismo foi se modificando seus meios de transmissão de conteúdo, sua mensagem também foi modificando.

Na Idade Média o catolicismo usava imagens iconográficas, sem a presença da escrita bíblica e sua liturgia era realizada numa língua estranha ao público. Essa comunicação litúrgica mostrava um Deus transcendente. Com a Reforma Protestante a Bíblia foi usada na língua do povo, assim como as músicas. Os cultos tornaram-se mais pessoais, transmitindo a idéia de um Deus mais imanente. Essa imanência fez com que os cultos pentecostais começassem a apelar para o emotivo.

Os neopentecostais que herdam esse método de liturgia mais imanente, apelando à emoção, buscam no seu contexto tecnológico a mídia audiovisual para não perder seu lugar na pós-modernidade. Pois na sociedade do espetáculo tudo é midiatizado pelo recurso da imagem. E o uso extensivo da mídia de massa visual super-enfatiza a emoção. Assim como “profetizado” por vários filósofos, a geração se tornaria escrava de sua invenção. O meio mudaria a mensagem e o seu autor.

A mídia usada pela igreja cristã a tem tornado mais secular, justamente o oposto de seu propósito. Estudos como o de Oliveira e Pires (2005), Klein (2006a) e Contrera (2006) mostram que o cristianismo ao se entregar ao uso da mídia de massa tem se tornado super-emotivo, existencial e mundano. Isso é uma descaracterização do cristianismo, ou seja, ao invés da igreja modificar os padrões seculares, o mundo é que tem modificado a igreja. E os adventistas do sétimo dia também têm enfrentado essa nova onda da religiosidade pós-moderna que tem secularizado o sagrado.

Para responder como essa influência pós-moderna está afetando a Igreja Adventista do Sétimo Dia no Brasil, parti do mesmo pressuposto de Postman e dos filósofos da comunicação da escola de Frankfurt, que o meio afeta o conteúdo. Como o conteúdo adventista é escatológico-essencialista, onde a razão bíblica é enfatizada, em detrimento de uma emotividade que gera uma desescatologia-existencialista, a igreja estaria correndo risco de perder sua identidade ao usar os meios de comunicação de massa.

E os números desse trabalho mostram que tal influência já pode ser percebida. Quando classificamos de forma mais geral todas as poesias musicais produzidas desde o início em 1995 até 2007, percebemos que a ênfase existencial está presente em 59% delas contra 41% de conteúdo mais escatológico. Isso tirando as músicas classificadas como litúrgicas que a princípio não são relevantes para a pesquisa. Apesar de ser menor que o esperado, e que o detectado em pesquisas com os neopentecostais, essa presença existencialista na mensagem adventista deve ser olhada com cuidado.

Quando adicionamos os resultados da análise dos vídeos essa preocupação se torna mais evidente. Músicas com poesias que retratam fidelidade a Deus são traduzidas em um relacionamento apaixonante de um casal de namorados. A relação Deus-homem se transforma numa novela jovem. Como Postman sugere, os autores normalmente não entendem o impacto que suas invenções podem causar (1994, p.25). E creio ser esse o caso da produção musical jovem adventista.

Mas ao detectar que cerca de 80% das imagens usadas para comunicar a mensagem no CD Jovem é ilustrativa, isso revela que a produção adventista é mal projetada. Pois não consegue produzir uma mídia capaz de unir texto e imagem. Isso a torna ineficiente para transmitir a mensagem da poesia. E quando essa união é tentada ela é mal sucedida e influenciada pelo existencialismo pós-moderno. Talvez por isso a presença de um roteiro romanceado para traduzir um conceito de fidelidade entre Deus e o crente.

Mas não seria essa pequena ênfase existencialista nas poesias uma oportunidade da Igreja Adventista do Sétimo Dia alcançar os pós-modernos? Como esse trabalho estudou apenas a influência do meio na mensagem e possivelmente na sociedade, é importante verificar o impacto que essas músicas causam nos ouvintes e assim fechar o ciclo da comunicação, onde o meio modela a mensagem que por sua fez modela o homem. Nesse trabalho nos atemos apenas à primeira parte. Mas a partir desse primeiro passo já podemos prever alguns impactos.

Após o CD Jovem e suas mídias audiovisual para serem usadas como auxílio na liturgia adventista, surgiram o ministério de louvor Está Escrito e as projeções da coletânea de músicas do Hinário Adventista. Apesar de não termos dados concretos ainda, podemos afirmar que o recurso áudio-visual de massa veio para ficar na Igreja Adventista do Sétimo Dia. A produção midiática Adventista só cresce em quantidade. CDs e DVDs, estudos bíblicos em vídeo, são produzidos cada vez mais para atender uma comunidade que espera esse tipo de produto.

Mas qual o impacto que isso tem gerado na comunidade adventista? Se levarmos em consideração o que Adorno afirmava quanto à cultura de massa (1974. p.19; 1975. p.176), essa onda de midiatizar o estilo de vida adventista tende a enfraquecer o conteúdo de sua mensagem e criar uma geração que não reflete nas razões de sua existência e de suas origens, que no caso do adventismo é profético-escatológicas.

Ao mesmo tempo, a proposta de Gene Edward Veith Jr. (1994) deve ser considerada. Em sua avaliação da pós-modernidade e o cristianismo, ele propõe que “a igreja poderá ter de apelar às emoções das pessoas, mas logo deverá ensiná-las a pensar biblicamente” (1994. p.219). Ou seja, a igreja não pode rejeitar a pós-modernidade e a cultura de massa, pois se fizer isso possivelmente não sobreviverá.

O que ela deve fazer é usá-la com cuidado. E para tanto, é necessário uma produção midiática bem planejada por comunicadores comprometidos com a mensagem adventista. E mesmo ao usar a mídia de massa, principalmente os recursos áudiovisuais, eles devem ser apenas um meio de atrair a um formato mais racional e bíblico. Talvez esse seja o desafio mais notável que essa comunidade cristã deverá enfrentar nesse século. E sua resposta poderá mudar completamente o rumo de sua identidade.

Rodrigo de Galiza Barbosa Bacharel em Teologia pelo Unasp Dez/2008


Fonte:
Revista Kerygma

Um comentário:

  1. Rodrigo, Meu nome é Antônio César.

    estou desenvolvendo uma tese sobre A Cultura de Massa e a Igreja, gostei muito do seu estudo. Parabéns!!

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