segunda-feira, 1 de junho de 2009

A vingança da ciência

Corre o ano de 1633. Um pesado silêncio domina a sala de audiências, enquanto vários clérigos aguardam expectantes as palavras do santo padre, o Papa. Apontando a mão direita, na qual ostenta um pesado anel de ouro, o pontífice fala ao homem à sua frente:

- Estás ciente da gravidade de tuas declarações? Afirmando que a Sol - e não a Terra - é o centro do Universo, contrarias abertamente as tradições da Igreja Católica. Imaginem, a Terra se mover em torno do Sol! Retrata-te agora, ou sofra as consequências!

Galileu Galilei está bem ciente das punições aplicadas aos hereges, por isso, com certa hesitação, resolve negar suas ideias perante o tribunal. Mas nega apenas para salvar a própria vida.

À saída, longe dos ouvidos de seus inquiridores, diz:

- Eppur si muove! ("Mas que se move, se move!", numa tradução livre).

Não obstante sua retratação, Galileu foi condenado, como herege, à prisão domiciliar perpétua. No entanto, três séculos e meio depois, o suposto sucessor de Pedro (na época João Paulo II) concedeu o perdão ao grande astrônomo italiano. Mais um típico exemplo de infalibilidade falível.

Durante a Idade Média, não foram poucos os casos em que a Ciência teve que se submeter à Igreja. Através da "santa" Inquisição, o romanismo impunha o medo e mantinha sua dominação ideológica sobre a massa desinformada.

A própria Bíblia era negada ao povo, pois, "a fim de Satanás manter seu domínio sobre os homens e estabelecer a autoridade do usurpador papal, deveria conservá-los na ignorância das Escrituras. Suas sagradas verdades deveriam ser ocultadas e suprimidas. Durante séculos a circulação da Bíblia foi proibida pela Igreja de Roma. Ao povo foi proibida a sua leitura. Sacerdotes e prelados interpretavam-lhes os ensinos de modo a favorecer suas pretensões" (Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 33 - ed. condensada).

Os anos passaram. Podemos ver agora, no início do século 21, uma verdadeira reviravolta. A Igreja Romana - quem diria! - se submetendo à Ciência. Pior: aos erros da Ciência.

Pelo menos foi o que se pode perceber através dos jornais de todo o mundo, no fim de outubro de 1996. A revista Veja, por exemplo, trouxe à página 47 de sua edição de 30 de outubro, o seguinte subtítulo: "O Papa surpreende ao dizer que a teoria da evolução é mais do que uma simples hipótese."

E o artigo de Laurentino Gomes continua: "A Igreja [Católica] há muito tempo admite que alguns textos bíblicos são narrativas alegóricas, que não devem ser tomadas ao pé da letra. É o caso do livro Gênese..." Bem, isso não era nenhuma novidade, mas a seguinte declaração do Papa foi: "As novas descobertas levam à constatação de que a teoria da evolução é mais do que uma hipótese (...) se o corpo humano tem sua origem em matéria pré-existente, a alma foi criada diretamente por Deus" (Aqui João Paulo II repetiu uma frase da encíclica "Humani Generis", do papa Pio XII).

Mas qual é o problema de uma declaração dessas? Que mal há em se crer que a vida tenha se originado abioticamente (vida de não-vida)? Não seria possível conciliar a teoria da evolução e a Bíblia?

Para fins práticos, podemos dividir as pessoas em dois grandes grupos: os evolucionistas e os criacionistas. E ambos os grupos se baseiam em teorias e ciência histórica, as quais são impossíveis de se demonstrar ou repetir hoje em dia. E, lembre-se: "Em ciência, se um fenômeno não se repete ele não pode ser confirmado" (Carl Sagan, revista Veja, 27/03/96, p. 89).

Tanto o evolucionismo, o criacionismo "como qualquer outra teoria científica, pode inicialmente ser divulgada por razões estéticas ou metafísicas, mas o teste real é verificar se ela é capaz de fazer previsões que empatem com as observações" (Stephen Hawking, Uma Breve História do Tempo, p. 163).

Evolucionismo Ateísta ou Materialista

O que é a doutrina evolucionista? "É uma preocupação científica que defende o contínuo desenvolvimento das espécies, das menos complexas às mais complexas. O ideal desta teoria é mostrar uma sucessão de etapas que culminariam no surgimento do homem, a partir de uma única célula" (Dr. Gilead dos Reis Bergmann, Criou Deus os Céus e a Terra?, p. 8).

Embora quase sempre associemos evolução com darwinismo, as ideias evolucionistas são bem mais antigas. Anaximandro, Empédocles, Tales de Mileto e Aristóteles, filósofos gregos do século 6 a.C., já defendiam a teoria evolucionista.

Lamarck, Hilaire, Lyel e Erasmo Darwin (avô de Charles) também divulgaram o modelo da evolução. Mas, certamente, Charles T. Darwin (1809-1882) acabou tornando-se a figura mais importante dessa teoria. Darwin viajou pelo mundo com o navio Beagle durante cinco anos (1831-1836). Com base nas ideias de outros evolucionistas e suas próprias observações, escreveu A Origem das Espécies, publicado em 1859.

Darwin verificou que a fauna das Ilhas Galápagos era a mesma da América do Sul, mas com modificações promovidas pelo meio. A partir daí, iniciou suas observações e conclusões.

Evolucionismo Teísta

Dentro do evolucionismo existem aqueles que se dizem "crentes" e aceitam a existência de um Criador. Creem no relato do livro bíblico de Gênesis, mas interpretam-no simbolicamente, como fez o papa Pio XII, na encíclica "Humani Generis".

A Terra teria sido criada há cerca de 4,6 bilhões de anos com seus elementos primitivos, chegando-se às atuais criaturas. Seria, mais ou menos, como dizer que o Universo é um relógio no qual Deus deu corda e deixou seguir seu caminho natural (parecido com o que dizem os deístas). É, na verdade, uma tentativa de se conciliar a Bíblia com o evolucionismo.

O evolucionismo teísta e o materialista, portanto, diferem apenas quanto ao problema da origem da matéria e da vida.

Criacionismo

"A doutrina da criação especial não é meramente um credo a ser aceito pela fé. Apela às faculdades espirituais e também à lógica. Cada fato da ciência natural é explicável logicamente do ponto de vista da criação especial. No uso atual é necessário menos fé em sua aplicação à natureza do que na aceitação da teoria da evolução orgânica" (Gérson Pires de Araújo, Conceitos de Evolucionismo e Criacionismo, p. 10, 11 - IAE).

O criacionismo não ensina que o homem hoje é como era quando foi criado. Ao contrário, ensina que as "raças" ou etnias modernas são formas degeneradas daquele primeiro homem que foi formado do pó por seu Criador, e à Sua imagem e semelhança.

Essas mudanças ocorreram através de diferenças hereditárias que apareceram e são transmitidas pelas leis da genética. Por meio de processos de mutação e hibridização dentro do gênero humano, temos todas as raças e tipos ou espécies de seres humanos modernos.

Semelhantemente, têm ocorrido e estão ocorrendo variações entre todos os animais e plantas (essas variações, muitas vezes, são chamadas erroneamente de "espécies").

A Bíblia, portanto, apresenta a origem da vida e do homem (isso há mais ou menos 6 a 10 mil anos) como sendo resultado da direta ação de Deus através do poder de Sua Palavra, pois, "pela fé entendemos que o Universo pela Palavra de Deus foi criado; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é visível" (Hebreus 11:3).

Mas se ambos - criacionismo e evolucionismo - são teorias, por que nos meios acadêmicos e científicos a evolução predomina? O problema começou no século passado.

Por volta do ano de 1860, foi realizado um debate público. Samuel Wilberforce, bispo de Oxford, foi incumbido de "massacrar" as novas idéias evolucionistas. O debate foi realmente um massacre, só que o massacrado foi o bispo. Thomas Huxley, experiente cirurgião evolucionista, destruiu os argumentos infantis do bispo despreparado.

Sem dúvida, tal episódio foi marcante no confronto inicial entre os dos modelos. Tivesse o darwinismo encontrado alguém que representasse o criacionismo à altura naquela reunião, que por ter sido uma discussão pública teve denotação especial, a performance daquela teoria teria sido outra. Inicialmente, o sucesso do darwinismo não se deveu, portanto, a uma teoria convincente, mas à fragilidade do oponente.

Outro fator importante, no contexto geral, foi que o clima cultural do racionalismo e do materialismo implantou uma nova ordem social. As pessoas estavam saturadas de tradicionalismo. Agora só lhes interessavam novidades, não importando tanto para muitos o fundamento.

Assim, o pensamento evolucionista acabou se infiltrando nas demais ciências e amplamente difundido nas escolas e pelos meios de comunicação, adquirindo caráter de verdade científica, fato quase incontestável.

Infelizmente, ainda hoje, há muita ignorância científica por parte do mundo religioso. E, por outro lado, muita ignorância bíblica por parte dos cientistas. O que ocorre, então, é uma batalha de pensamentos diferentes que pouco ou nada conhecem do campo adversário.

Incoerências

O ideal é comparar os modelos e verificar qual dos dois mais se ajusta aos fatos observados na natureza. Abaixo, seguem algumas incoerências do modelo da evolução:

Adaptações. Só são úteis quando completas. Um bom exemplo são os répteis que têm a mandíbula formada pelo osso dental e os ossos quadrado e articular. Neles, o ouvido médio tem um único ossinho: o estribo. Já os mamíferos, ao contrário, têm a mandíbula formada só pelo osso dental, e o ouvido médio é constituído por três ossinhos: estribo, bigorna e martelo.

O deslocamento por microevolução dos ossos da mandíbula para o ouvido médio teria que se dar prosseguimento, segundo a teoria da evolução. Enquanto não se processa essa transição, entretanto, os répteis teriam de ficar centenas de anos sem poder comer, ou teriam de engolir sem mastigar, já que esta transição impediria a mobilidade desejável da mandíbula.

Digestão. Para que aconteça o processo da digestão são necessários uma série de fatores, dentre os quais está a variação de pH. Enquanto a boca é ligeiramente ácida (pH=6), o estômago é bastante ácido (pH=2) e o intestino delgado, alcalino. Estes fatores, em conjunto, promovem a digestão. Como poderiam ter evoluído por etapas? Até que evoluíssem, o organismo morreria de fome.

Entropia. A geração espontânea da vida, como requer o modelo evolucionista, implicaria num crescente ordenamento natural de massas caóticas, coisa altamente improvável em face da propensão para o desordenamento resultante da validade do princípio da entropia (Segunda Lei da termodinâmica).

Esta lei atinge diretamente doutrinas ou teorias sobre a origem espontânea da vida ou de qualquer tipo de processo ordenado. "O que a Segunda Lei nos diz, portanto, é que no grande jogo do universo, não somente não conseguimos vencer; não conseguimos nem mesmo empatar" (Isaac Asimov, "In the Game of Energy and Thermodinamics You Can"t Even Break Even", Journal of Smithsoniam Institute, junho de 1970, p. 6).

Olho humano. O próprio Darwin ficava intrigado com a complexidade do olho humano. Como cada uma das microestruturas de que se compõe o olho poderia ter evoluído separadamente? Se o nervo ótico, por exemplo, "surgisse" em algum animal, não havendo um globo ocular no qual se conectar, na próxima geração deixaria de existir.

O que falar da complexidade da célula, do DNA e do cérebro? Muito ainda poderia ser dito sobre as incoerências da teoria da evolução mas o espaço não permite (para mais detalhes sobre tais incoerências, leia A História da Vida, da Casa Publicadora Brasileira).

Agora analise esta comparação: caso uma expedição espacial voltasse à Terra trazendo alguns artefatos mecânicos de outro planeta e os submetesse aos especialistas e estes, após o estudo das peças, concluíssem que elas são produto da operação das leis da probabilidade e do desenvolvimento durante milhões de anos pelo acúmulo de organização da matéria por mera casualidade e não são obras de alguma mente inteligente. O que você acharia?

Seria possível que, sacudindo uma sacola com as peças de um relógio durante milhões ou bilhões de anos, surgiria num dado momento um relógio funcionando? O evolucionismo defende algo semelhante, mas sem as peças pré-fabricadas do relógio. Para os evolucionistas, o Universo, bem como tudo o que nele existe, com toda a sua complexidade, teria surgido do nada e caminharia para a perfeição!

Enquanto que para o evolucionista o destino final de tudo o que existe é uma incógnita, o criacionista tem a firme convicção de que Deus intervirá novamente na história da Terra. Foi Cristo mesmo, enquanto esteve neste planeta, quem fez a seguinte promessa: "Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, credes também em Mim. Na casa de Meu Pai há muitas moradas (...) vou preparar-vos lugar. E quando Eu for, e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei..." (João 14:1-3).

De onde viemos e para onde vamos? Para o evolucionista, viemos do nada (de uma explosão cósmica) e caminhamos para não se sabe onde. Para o criacionista viemos das mãos de um Deus onipotente que nos fez à Sua imagem e semelhança e "aguardamos novos céus e nova Terra, nos quais habita a justiça" (2 Pedro 3:13).

É uma pena que a própria Igreja Católica esteja dando apoio aberto a uma teoria que, no fundo, procura lançar as bases do ceticismo e da descrença. Diante de tantos avanços e recuos; tantos erros e conformismos com a ciência popular, o profeta de Patmos não poderia ter usado alcunha mais apropriada: Babilônia. Pura confusão, incoerência, caos total.

Michelson Borges

Fonte: Outra Leitura
(http://www.outraleitura.com.br/web/artigo.php?artigo=145:A_vinganca_da_ciencia)

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